Biafra, a guerra e a fome em um romance muito bom

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Se você, assim como eu, foi criança nos anos 1970, talvez você tenha ouvido seus pais fazerem comentários sobre a Guerra de Biafra. Eu ouvia minha mãe falar sobre o horror em Biafra, aí eu ia no mapa, que eu adorava mapas, aliás, gosto até hoje, e não encontrava nenhum lugar chamado Biafra. Eu conhecia só um Biafra, o cantor. 

Nos anos 1970 e 1980, a gente aprendia pouco sobre a África a escola: era aquela narrativa sobre o Cabo das Tormentas sendo renomeado como Cabo da Boa Esperança, o Egito Antigo, alguma coisa sobre a conquista do território africano pelos europeus e pronto. Não havia uma nota sobre a descolonização da África. Sobre isso, vinham imagens nos jornais e revistas, e eram sempre imagens de militares carrancudos em seus palácios extravagantes ou de crianças morrendo de fome em campos de refugiados. Aliás, o cantor Biafra ganhou esse apelido por conta da sua magreza na infância, por conta das imagens de pessoas, particularmente crianças, magérrimas e desnutridas em decorrência da Guerra de Biafra.

A Guerra de Biafra é o pano de fundo deste romance de Chimamanda Adichie. Aqui, ela conta a história de três personagens ao longo dos anos 1960. É nesta década que a Nigéria tem que lidar com a saída do colonizador, a Inglaterra, e com a separação de uma parte do seu território, Biafra. É aí que explodem a guerra e a fome. E é aí que o mundo ocidental, rico e civilizado, que tanto havia explorado o continente, adota sua postura frente aos problemas: o silêncio.

“O mundo estava calado quando nós morremos.” 

Esta é uma frase que você vai encontrar repetidas vezes neste livro.

“O mundo estava calado quando nós morremos.” 

São três as principais personagens desta história: um garoto que vem de uma aldeia rural para trabalhar como empregado doméstico na casa de um professor universitário, uma jovem rica e recém formada que volta da universidade em Londres e um inglês idealista que troca a metrópole pela colônia. No entrelaçamento das vidas cotidianas destas três personagens, Chimamanda Adichie desenvolve um romance rico em personagens secundárias, em tramas que envolvem relações familiares, empresariais e governamentais, em detalhes de vestimentas, alimentos, moradias, costumes, em como armas, bombas e estilhaços se transformam em brincadeiras infantis. 

Hoje as escolas começam a ensinar mais sobre o que foi a colonização e a descolonização da África, a brutalidade e o descaso destes dois processos. Mas para quem não está mais em idade escolar, a literatura oferece boas aulas. Este “Meio sol amarelo” vale por uma pós-graduação no assunto. E este é um aspecto que, aqui na minha opinião, é importantíssimo: a literatura pode nos abrir as portas para a história. A ficção tem o poder de nos intrigar e de nos levar a aprender mais, a buscar outras respostas, a fazer novas perguntas. Por que o mundo estava em silêncio enquanto eles morriam?

E com essa eu vou ficando por aqui. Até a próxima.


* * * * *

Meio sol amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie

Editora Companhia das Letras, 2008

Tradução de Beth Vieira

502 páginas

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