O ocaso de Lula

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“Neste momento em que uma ameaça fascista paira sobre o Brasil, quero chamar todos e todas que defendem a democracia a se juntar ao nosso povo mais sofrido, aos trabalhadores da cidade e do campo, à sociedade civil organizada, para defender o estado democrático de direito.

Se há divergências entre nós, vamos enfrentá-las por meio do debate, do argumento, do voto. Não temos o direito de abandonar o pacto social da Constituição de 1988. Não podemos deixar que o desespero leve o Brasil na direção de uma aventura fascista, como já vimos acontecer em outros países ao longo da história.”

Podia ter sido a fala de um líder genuinamente preocupado com o rumo do país, que estivesse enxergando para além do que os cidadãos comuns conseguem ver, que soubesse que o momento de união significava desprendimento da própria história pessoal.

Mas não era. Não era e não é. Quisera eu fosse a fala de um estadista, mas acabou sendo apenas o discurso de um político. Foi um pedido de Lula para que os brasileiros votassem em Haddad em 2018, numa carta escrita da prisão em Curitiba. 

Agora em 2020, dois dias atrás:

“Li os manifestos e acho que tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora. Não se fala em classe trabalhadora, nos direitos perdidos”. “Sinceramente, eu não tenho mais idade para ser maria vai com as outras. O PT já tem história neste país, já tem administração exemplar neste país. Eu, sinceramente, não tenho condições de assinar determinados documentos com determinadas pessoas”. “[Tem] muita gente de bem que assinou. E tem muita gente que é responsável pelo Bolsonaro. O PT tem que discutir com muita profundidade, para a gente não entrar numa coisa em que outra vez a elite sai por cima da carne seca, e o povo trabalhador não sai na fotografia.”

Todos somos responsáveis por Bolsonaro, de um modo de outro. A tempestade é uma só e vamos todos afundar juntos, pobres e ricos, elite e ralé. Uns vão se afogar menos? Sim. Outros vão se afogar mais? Sim, também. Mas ao invés de unir-se ao movimento e dentro dele colocar suas pautas em defesa dos trabalhadores, Lula quer o PT de fora para, sozinhos, o partido e ele, serem o super-herói contra o obscurantismo bolsonarista. Ou para sua redenção pós-Lava Jato. Não vai rolar. Com tal comportamento, ele vai aprofundar o abismo, porque leva consigo uma turma ainda fiel, mas Lula não vai reconquistar os eleitores que cativou em 2002.

Até aquele momento, Lula havia se candidatado três vezes à Presidência da República, tendo perdido uma vez no segundo turno, para Collor, e duas vezes no primeiro turno, para FHC. O voto em primeiro turno é um voto mais ideológico do que o voto em segundo turno; no primeiro, vota-se em quem se acredita, no segundo, escolhe-se um caminho numa bifurcação. E há, ainda, a decisão de não votar, seja por ausência ou escolha entre branco e nulo.

Me interessa particularmente o total de votos que um candidato tem no primeiro turno e o quanto isso representa do total de eleitores. Vou deixar o resultado das eleições de lado, porque eles consideram apenas votos válidos, ou seja, os votos dados nominalmente a um dos candidatos. Fiz um cálculo considerando os votos de primeiro turno divididos pelo total de eleitores aptos a votar em cada eleição – é o que aparece na imagem que ilustra este post. Com esta conta, temos um percentual que pode indicar, creio eu, a penetração de um candidato junto ao eleitorado. Por esta métrica, Lula saiu de um patamar de 14% em 1989, passou para 18% em 1994 e beliscou 20% em 1998. Um claro crescimento na preferência do eleitorado. Ou, se não na preferência (“sim, eu voto Lula”), pelo menos na aceitação (“ok, eu voto Lula”).

Mas o grande salto veio mesmo em 2002, quando no primeiro turno Lula obteve uma votação que representou 34% do total de eleitores e, quatro anos depois, concorrendo como incumbente, abocanhou nada menos que 37% da preferência dos eleitores totais. E ao longo deste período, o total de votos de todos os seus adversários, em cada eleição, foi ficando sempre um pouco menor em relação ao eleitorado total (1989: 68%; 1994: 49%; 1998: 44%; 2002: 39%; 2006: 39%, mas como o total de eleitores é maior do que quatro anos antes, esta manutenção relativa representa um número maior de pessoas). Importante destacar que os percentuais somados dos opositores de Lula são sempre maiores do que os percentuais de favoráveis a Lula. Ou seja, uma fatia do eleitorado foi aceitando mais e mais Lula, mas ainda assim uma outra fatia continuava contrária a Lula, e a fatia dos contrários sempre foi maior do que a fatia dos favoráveis.

Quando chegamos à eleição da sucessora de Lula, em 2010, a coisa virou: Dilma obteve 35% do total de eleitores e caiu para 30% em 2014. E em 2018, Haddad conseguiu apenas 21% do total de eleitores, voltando ao patamar das eleições em que Lula havia perdido para a dupla FHC/Plano Real ainda no primeiro turno, algo que por muito pouco não se repetiu na disputa de Haddad com Bolsonaro.

Resumindo: em que pese tudo o que houve de positivo nos dois governos de Lula, a corrupção na Petrobrás e a má condução da economia no governo Dilma (que alguns economistas afirmam ter começado no segundo mandato de Lula), corroeram o capital acumulado anteriormente. O PT pós-Lula presidente comeu o ganhado, como se diz lá na minha terra, e ficou da mão pra boca.

Voltando então ao presente, o que temos é um partido sem voto suficiente para ganhar uma eleição majoritária e sem disposição de fazer alianças a menos que seja exclusivamente nos seus termos. Acontece que tais termos não estão encontrando eco junto aos eleitores, para além de seus fiéis.

E a figura histórica de Lula vai se apagando. Nas próximas eleições, um terço do eleitorado nunca terá votado numa eleição presidencial em que Lula tenha sido candidato – para este contingente, ele é um ex-presidente que passou quase dois anos preso. Pior, são eleitores para quem a ira nas falas de Lula não se relaciona com a histórica dívida social e econômica que o Brasil apresenta, pois para estes foi justamente a má administração de um governo petista que começou a cavar o buraco que eles conhecem.

O que Lula e o PT podem oferecer aos eleitores de hoje? A resposta não está na justificativa com que Lula se recusa a assinar os manifestos suprapartidários que surgiram nos últimos dias. Quando afirma que não o faz “porque o que interessa para a elite brasileira é a política de desmonte do Guedes. Eles estão tentando reeducar o Bolsonaro, mas não querem reeducar o Guedes”, ele acerta, mas acerta errando. Há uma distância abissal entre Guedes e Mantega, mas que ao fim e ao cabo acaba por uni-los, pois ambos estão errados e carregam consigo as visões unitárias e sectárias de seus credos e de seus crentes. O acerto estaria em algum ponto entre ambos, contudo tal ponto está perdido nas brumas cinzentas de nossos tempos.

É hora de botar a cara na janela, olhar para fora, para frente, respirar ar puro. Lula está olhando no retrovisor. Sinto muito em dizer, e não tenho vergonha em dizer, que eu esperava mais dele.

 

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