Os mitos que levam à queima de livros

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Se há uma coisa da qual eu me arrependo é não ter comigo todos os livros que já li. Os livros se acumulam e se avolumam, as estantes não dão conta, surge uma mudança de casa e pronto – lá se vão muitos, em doações diversas. E me arrependo porque é muito comum eu querer voltar a um livro lido, por razões muito as mais variadas. Hoje, agora há pouco, eu fui à estante procurar O Alquimista, de Paulo Coelho, e não o achei. Doei na última mudança ou antes ou depois disso, já não sei. Talvez tenha sido na última arrumação, tentando fazer espaço para outros que chegaram depois.

Recentemente estive em Londres, visitando livrarias. Em quatro dias, visitei pouco mais de 30 livrarias, algo como sete ou oito por dia. Desafio qualquer pessoa a visitar cinco livrarias por dia, durante três dias seguidos, em qualquer cidade brasileira. Em qualquer cidade, não. Na maior cidade brasileira. E em cada livraria eu mirava duas coisas: o que eu posso aprender aqui e será que há algum livro de escritor brasileiro aqui? Nem sempre havia, porque algumas eram muito especializadas em outros assuntos. Mas nas maiores e mais generalistas, sim, havia. Em todas elas, havia pelo menos um livro de Paulo Coelho. Em uma delas, havia uma estante inteira dedicada ao Brasil, e nesta estante havia quase todos os livros de Paulo Coelho.

Eu não queria reler O Alquimista nem gostei de ler O Alquimista. Eu li mais algum livro do Coelho, não me lembro qual, e não tirei proveito das leituras dos seus livros. Para mim, para o meu gosto e padrão, a melhor produção de Paulo Coelho ele fez nas parceiras com Raul e Rita. It’s only brazilian rock and roll, but I like it.

Acontece, porém, que hoje eu vi dois vídeos de pessoas queimando livros de Paulo Coelho em retaliação à sua declaração de boicote aos produtos brasileiros como retaliação ao desgoverno de Jair Bolsonaro. Paulo Coelho errou, porque o boicote prejudicaria mais o brasileiro do que o ocupante do Planalto. Se os livros de Paulo Coelho não existissem, a mim faria pouca ou nenhuma diferença.

Num dos vídeos, um homem faz uma fogueirinha num balde de metal, confunde Paulo Coelho com Paulo Freire e acaba mandando os dois para Cuba, ou para Venezuela, usando desta desgastada palavra de ordem tão vaga e tão sem noção das coisas. Ele certamente não sabe que Paulo Freire atingiu o reconhecimento internacional após ter vivido nos EUA. É, nos EUA.

No outro vídeo, um casal que aparenta seus sessenta anos ou mais queima as páginas na churrasqueira enquanto a mulher reclama que Paulo Coelho falou mal do Brasil. E não se pode falar mal do Brasil? Depende: se seu interlocutor for uma pessoa que nunca saiu do Brasil, a chance de ele não aceitar que você critique o Brasil é imensa, afinal essa pessoa não sabe como são os outros países e tende a acreditar que as coisas no seu país são melhores. Não são, elas são apenas as coisas com as quais esta pessoa está acostumada. É mais ou menos o mito da caverna, mas dá uma preguiça de explicar…

Queimar livros é algo que não se faz. A violência presente neste ato é brutal. Para quê violência? Eu não entendo a violência como mediação de conflitos, e por isso, hoje, vivo momentos em que me pergunto: estarei me tornando estrangeiro no país em que nasci e cresci? Talvez não, provavelmente não. Acho que é só aquele antigo mito de país afável e pacífico que está caindo por terra. Mito é algo que só existe pela fé, pela crença, e não pela racionalidade. Mito é irracional. Por isso cai tão bem o aposto de mito ao atual presidente. Um mito é uma lenda, é quase uma mentira, na qual crê quem quer, quem não estuda, quem não lê, quem queima livros.

crédito da foto: istockphoto

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