Naquela mesa, Sérgio Bittencourt

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Em 1919, com 36 anos, Franz Kafka escreveu uma carta a seu pai que nunca foi enviada. Com 50 páginas manuscritas, se tornou o livro póstumo Carta ao Pai. Esse livro tem uma abertura poderosa, talvez tão poderosa quanto a linha inicial de A Metamorfose(“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso), pois começa simplesmente dizendo “Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você”. Tensão, concisão e gancho para laudas e laudas; é perfeita!

Ouvindo “Naquela mesa”, de Sérgio Bittencourt, penso nos Kafkas, pai e filho, e sinto pena deles, que não tiveram a chance de serem Jacob e Sérgio, o primeiro, do Bandolim, gênio do chorinho, o segundo, Bittencourt, jornalista e músico que deixou uma pérola em homenagem ao pai.

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor

A letra começa identificando um objeto que é também um lugar. Procure na sua memória e você encontrará um objeto-lugar do seu pai. Pode ser um cadeira de balanço onde ele toma ciência das notícias do dia. Pode ser um banco no quintal onde ele fuma um cigarro lembrando do que deu certo e do que deu errado em mais um dia de luta buscando prover  para a família. Talvez um canto da casa onde ele pratique uma atividade de lazer. Podem ser tantas coisas e tantos lugares, resumidos num objeto-lugar que traduz para você tudo o que seu pai representa.

Não só existe este objeto-lugar como ele ativa na sua memória falas do seu pai, porque pai fala, mesmo. Pai dá conta do passado para te mostrar como a família chegou ali e projeta no tempo esperanças de para onde a família vai.

Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã

Ao longo dos anos 1980, uma propaganda de televisão usava o mote ‘Não basta ser pai, tem que participar’ para mostrar um pai presente na vida dos filhos. Essa segunda estrofe traz um pai que não está chamando o filho para tocar violão junto com ele, nem cantar nem contar o que o filho fez. Este pai está contando para o filho o que ele mesmo, o pai, fez. E conta com tal empenho e alegria, com ‘tanto brilho’, que desperta no filho o desejo de ser como pai. O filho-fã não quer ser apenas filho nem somente fã – ele sabe que é filho, mas o entusiasmo do pai o contagia a ponto de se tornar modelo. Este é um pai que participa, que é presente; talvez um modelo antiquado de pai, talvez uma relação que hoje pareça impositiva, ou unidirecional, mas uma relação modelar, que acaba por ser a mais forte de todas.

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim

Naquela mesa está faltando ele
E a saudade dele está doendo em mim

Naquela mesa está faltando ele
E a saudade dele está doendo em mim


Por fim, a dor da saudade. Como na música de Gilberto Gil, “toda saudade é a presença da ausência”. A presença do objeto-lugar marca concretamente a ausência do pai. Ainda está tudo ali, todos os objetos e os lugares, mas não está mais a figura que dava sentido à mesa, ao canto, ao jardim, à casa e ao bandolim.

Jacob do Bandolim morreu em 13 de agosto de 1969, há 49 anos. Querendo publicar algo hoje, eu comecei e abandonei duas outras ideias, até topar sem querer com a música, da qual gosto desde criança. Quando comecei a escrever o texto, eu não sabia desta coincidência. A música foi gravada pela primeira vez em 1972. Sérgio morreu em 1979.

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Um link para quem gostar de um som que hoje chamam de vintage, raiz, sei lá… a voz poderosa de Nelson Gonçalves: https://www.youtube.com/watch?v=ppUJpWcamz8

Outro link para a virtuose preciosa de Hamilton de Holanda no bandolim, quem nunca viu, precisa ver: https://www.youtube.com/watch?v=MiV8GarcHHo

E um terceiro, com não só o autor, mas também a voz mais bela do Brasil, aquela que foi chamada de Divina não por acaso nem por marquetagem, e que foi convidada por Tom Jobim para gravar o primeiro disco de bossa nova, Elizeth Cardoso: https://www.youtube.com/watch?v=g2dpHFDKtoY

Trechos de Kafka em tradução de Modesto Carone, pela Companhia das Letras.

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