Votuporanga, 81.

8 comentários

É bem mais que “apenas uma fotografia na parede”* e, falando sinceramente, não me dói.

Uso como muleta este verso do Poeta Maior para abrir o segundo texto que escrevo sobre a minha cidade. O primeiro acabou sendo também o meu primeiro texto publicado, pois meu avô Nabuco enviou para o Diário de Votuporanga, que o publicou em 8/8/1978. Eu tinha oito anos e uma vida pela frente na qual sonhava sair da cidade que me viu crescer.

Quarenta anos depois, já há 30 sendo um votuporanguense ausente, volto a escrever para homenagear o aniversário da cidade. Hoje foi feriado por lá e não sei se aconteceu o desfile cívico pela Rua Amazonas, ou o Baile da Cidade no clube onde fui barrado uma vez pelo Toninho por estar sem paletó, ou o grande show na Expô, quando um gaiato gritava ao microfone que a festa do peão de Votu, que acontecia uma semana antes da de Barretos, chegava a ofuscar o sucesso da festa mais famosa. A plateia vibrava!

Crescer no interior tem todos aqueles clichês bem manjados: brincar na rua, ir e voltar à pé para a escola, ser reconhecido em todos os lugares, comer fruta no pé, jogar bola em terreno baldio, reconhecer na rua o cachorro do seu amigo, empinar a bicicleta e bater no carro da sua professora, encontrar as mesmas pessoas de manhã, à tarde e à noite em três locais diferentes. E tinha também a ausência total de diversão durante a Quaresma. E uma solidão marcada em silêncio profundo na Sexta-Feira Santa. E as torres da igreja badalando as horas e marcando a Ave Maria – crescer no interior era conviver com a religiosidade, as novenas e as procissões do Catolicismo.

Se não tenho uma fotografia na parede para me lembrar da minha cidade, me lembro dela sempre que como goiaba ou pamonha, ou quando sinto cheiro de vagem em cozimento.

Em Votuporanga aprendi tudo o que precisei para aprender coisas novas depois que saí de lá. Aprendi que não é meu lugar de viver e que ela vive em mim em qualquer lugar onde eu estiver. Ainda hoje sei de cor o seu hino e no ano passado fui ver um jogo do seu time de futebol aqui na Rua Javari – perdemos o jogo e eu comi um canoli, que para mim não tem sabor de infância.

A cada nova visita à minha cidade, tiro um pedaço do dia para andar sem destino, conhecer seus novos bairros onde antes era só zona rural, suas novas lojas em lugar das velhas mercearias, seus moradores que vejo andando pelas calçadas e cujos rostos não reconheço, suas ruas tomadas de carros e motos e sem mais nenhuma charrete puxada a cavalo. No meio deste desconhecimento, o sino da igreja toca, suas duas torres se pronunciam rumo ao céu, eu me percebo em casa.

________________________________

* Verso de Carlos Drummond de Andrade, no seu poema Confidência do Itabirano, do livro Sentimento do Mundo. Carece de recomendação, né?

foto: torres da Catedral Nossa Senhora Aparecida, de Maria Eugênia Nabuco.

8 comentários em “Votuporanga, 81.”

  1. Adauto, adorei o espaço aberto com o blog. Elegante na simplicidade, aguçado no olhar e profundo na leveza da escrita. Lá vamos nós para as cabeças, nas cabeceiras!

    Curtir

  2. Gosto de ler seus textos.
    Gosto de ler textos de quem sabe escreve-los.
    Gosto de perceber as evidências do quanto são ricos; não são só palavras, são construções, combinações, tomam forma.
    Este trecho, por exemplo:
    “Em Votuporanga aprendi tudo o que precisei para aprender coisas novas depois que saí de lá. ”
    Há tanto aqui.
    E, particularmente, identifico claramente vc.
    “Aprendi que não é meu lugar de viver e que ela vive em mim em qualquer lugar onde eu estiver. ”
    E dessa maneira, vc traduz o q acontece conosco, votuporanguenses nativos; porém, do mundo.
    EU SOU do mundo.
    Eu sou…

    Curtir

  3. Que lindo ! Tão belas palavras e lembranças só poderiam ser eternizadas por uma pessoa tão especial como você. Parabéns

    Curtir

  4. Amei, e apesar de ter passado grande parte da minha infância no interior do paraná, me deu vontade de redescobrir o Brooklin, bairro que me transformou numa pequena cidadã de São Paulo, bjo!

    Curtir

  5. Parabéns, ADAUTINHO! Pra mim vc sempre será ADAUTINHO, porque Adauto é o meu irmão que é o seu pai. Kkkkk
    Adorei os seus textos. Li dois por enquanto. Pretendo ler todos. Beijos!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s