Um pé de goiaba

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No quintal da casa do meu avô Nabuco tinha um pé de goiaba que fazia companhia à laranjeira, ao mamoeiro, à pitangueira, ao limoeiro e à amoreira. E tinha ainda um imenso pé de manga, daqueles que não deixam nada crescer à sua sombra. Mas era no pé de goiaba que eu gostava de subir, porque meu avô havia me ensinado que seus troncos, quando ainda não eram tão grossos, eram flexíveis para sustentar o peso de um garoto, e porque eu gostava mesmo de goiabas. Vermelhas, cheirosas, às vezes feiosas, com bicho dentro que a gente tinha que ir mordendo com cuidado para não achar só meio bicho.

O pé de goiaba ficava num canto do quintal de terra, próximo do muro e da janela do último quarto da casa, que se abria para o quintal e de onde, ao estender-se o braço, apanhava-se uma fruta. Mas meu braço de moleque ainda era curto, compensado então pela agilidade e destemor dos moleques em trepar em muros, janelas e árvores.

Ler as histórias de Chico Bento roubando goiaba do Nhô Lau me remete diretamente àquelas tardes mansas de muito calor depois da escola. Goiaba no pé, manga no pé, pitanga no pé, amora no pé. Só estender a mão. Da mão pra boca. Sem roubar. Só trepar no pé de fruta que o avô plantou.

Meu avô plantava árvores, as plantou até perto dos 90 anos, quando seguramente não esperava mais provar suas frutas. Mas o mistério da vida deve ser isso: saber deixar para os outros.

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Rubem Braga escreveu crônicas belíssimas sobre plantas. ‘O pé de milho’ é uma delas que dá nome a um livro seu de 1948: na semana que os americanos conseguiram fazer contato com a Lua, a coisa mais importante que tocou sua alma de poeta foi o nascimento casual de um pé de milho no seu jardim. Outra belíssima, ‘O cajueiro’ trata da dor pela queda de uma árvore que lhe marcara a infância. Ou o álamo cantado em ‘Árvore’, de 1955, enxergando na beleza da árvore tudo o que o cronista via de mais belo na figura feminina da qual não se esquecia. E até mesmo sobre o mato, em ‘O mato’ – Braga era simplório nos títulos, com o que abraçava tudo o que pretendia dizer no texto: o homem vai para o mato depois de um dia de trabalho e fica feliz.

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Trepado num pé de goiaba, onde fui parar por pura vontade de comer goiaba, vi a natureza que era possível vivendo na cidade. E ali apreciei a força vital dos vegetais. E de um deles comi-lhe um pedaço, como um canibal celebra a força que admira no seu inimigo recém derrotado. Ganhei mais vida, sem que me tenham sussurrado nada. Satisfeito, desci, saí da casa de meu avô, fui para a minha casa. Tomei banho, jantei, dormi e acordei para um novo dia de aula. De lá para cá, quarenta anos. Muita goiaba compra em supermercados.

 

 

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