A vida não é filme: brevíssimo comentário sobre dois gêneros musicais nos anos 1980 no Brasil segundo um escritor que desafina até tocando campanhia.

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Dois versos do rock brasileiro dos anos 1980 dizem muito para mim:

“A vida não é filme / Você não entendeu”, de Herbert Vianna, no rock Ska.

“Pra quem não sabe amar / Fica esperando / Alguém que caiba no seu sonho”, de Cazuza, na canção Blues da Piedade.

Ambas falam aos românticos.

Os românticos sonham com a perfeição e quando sofrem sofrem perfeitamente.

Tudo nos românticos é ideal como em Platão: o amor é ideal, o ódio é ideal, o mais ou menos é ideal e não chega a ser nem mesmo mais ou menos, é só mais mesmo.

Daí Cazuza: o romântico idealiza o amor e espera, espera, espera… até o dia em que finalmente a providência lhe coloca no caminho alguém que seja aquilo com que ele tanto sonhou. Se sim, tudo. Se não, nada. Tudo e nada sendo tão absolutos quanto apenas os românticos conseguem obter.

E também Herbert Vianna: a vida da gente não dá um filme, um filme da vida da gente só a gente conseguiria assistir – e talvez saísse no meio se acabasse a pipoca. Quando a vida parece um filme, nada do que faz um filme bom está acontecendo na vida.

E quando a vida parece um filme, o diretor está com dor de cabeça.

O roteirista digitou algo errado e a impressora travou.

O maquiador machucou o dedo e errou na base, no rímel, no lápis, no batom.

O figurinista teve um problema na estação do metrô, chegou atrasado e a cena nos pegou de calças curtas.

O contra-regra se esqueceu de nos lembrar do que deveríamos não nos esquecer.

O cenógrafo errou nas tintas, carregou nos meios tons e nada se destaca na paisagem.

Enfim, a vida não é filme. Mas como a gente queria que fosse.

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Eu adoro o rock brasileiro dos anos 1980. É a música da minha adolescência. Quando eu tinha 12 anos, a Blitz estourava geral com “Você não soube me amar”, “O romance da universitária otária” e “Mais uma de amor (geme geme)”. Aos 13, era impossível não ouvir os refrões “Fazer amor de madrugada / Amor com jeito de virada” e “Só gosto com você / Só faço com você / Adivinha o quê”. Com 14 anos eu só tinha ouvidos para um set list detonador: “Óculos”, “Meu erro”, “Fui eu”,  “Romance ideal” e “Ska”, no lado A; “Mensagem de amor”, “Me liga”, “Assaltaram a gramática”, “Menino e menina” e “O passo do Lui”, no lado B – O passo do Lui, dos Paralamas, na íntegra. Completando 15, minha praia foi invadida “Zoraide”, “Ciúme”, “Inútil” e outras do Ultraje. Os 16 anos me pegaram morando sozinho em Ribeirão Preto e pirando junto com milhares de adolescentes no show do RPM no estádio do Comercial; no mesmo ano, eles voltariam para um show ainda maior, no estádio do Botafogo. E um ano depois, a pedrada de “Vida bandida” acariciada pelos versos quase doces do mesmo Lobão: “Vida louca vida / Já que eu não posso te levar / Quero que você leve”. E tirei carteira de motorista, aos 18, algo que os rapazes ansiavam fortemente naqueles estranhos anos 1980, ouvindo um ao vivo em Montreux com o rock dos Titãs e o maior rock’n’roll brasileiro, “Pense, dance”, do Barão Vermelho. Entrei nos 19 com os biscoitos finos “Miséria”, “Flores” e “O pulso”.

Esse rápido apanhado de mega hits, filtrado pelo gosto pessoal, dá uma boa mostra de que o rock brasileiro nos anos 1980 foi bom, muito bom, bom mesmo. Tão bom que hoje esses roqueiros cinquentões ou quase sessentões são entrevistados à rodo, pois fizeram história. Mas me incomoda quando quase todos eles falam da modorra, da chatice, da caretice da música brasileira feita quando eles apareceram.

Pois eu discordo! Havia música chata, pois alguém sempre a ouve. Pensei em fazer uma lista, mas ficaria chato… Pego o ano de 1984, o ano de Orwell, como exemplo. Neste ano, Gilberto Gil lançou o disco A raça humana e Caetano Veloso o seu Velô. Se alguém, hoje, não se empolgar nem se emocionar ouvindo “Tempo rei”, “Vamos Fugir”, “Pessoa nefasta”, “Extra II – o rock do segurança”, “A mão da limpeza” e “Índigo blue, ou “Podres poderes”, “Língua”, “Pulsar”, “O homem velho” e “O quereres”, é ruim da cabeça ou doente do pé. 

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Os roqueiros oitentistas estavam sendo os tropicalistas sessentistas ou os modernistas de 1922, cumprindo o ciclo das águas.

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