Os juros dos jatos

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Não há nenhuma dúvida de que a divulgação da lista do BNDES tem fins políticos e eleitorais. Foi uma retaliação do governo federal a alguns críticos específicos. Uma ação com fígado, típica dos não fidalgos.

Esta lista traz os nomes dos ricos que tomaram dinheiro emprestado para comprar aviões a jato e nela constam o governador de São Paulo, João Dória, que tenta desembarcar da canoa bolsonarista em que pulou sem pudores na campanha de 2018 e o apresentador de TV Luciano Huck, que quis ser candidato a presidente mas desistiu quando viu as perdas econômicas implicadas no rompimento dos seus contratos publicitários, além de outros nomes dos mundos políticos e empresariais – sempre misturados, e na maioria das vezes não por boas causas.

Mas todo mundo se explica, garantindo que o empréstimo foi legal e foi pago. E foi legal mesmo, no sentido de dentro da lei. O banco que poderia financiar micro e pequenas empresas, que garantem metade dos empregos formais da iniciativa privada no país, preferiu emprestar cerca de 700 milhões de reais entre 2009 e 2014, a juros de 2,5% a 8,7% ao ano, como forma de requerer a economia brasileira após a crise global de 2008.

Se durante o período de 2009 a 2014 eu precisasse de um crédito para abrir uma microempresa e gerar três ou quatro empregos, teria que tomar no sistema bancário, público ou privado, pagando em torno de 25% ao ano em 2009 e 15% ao ano em 2010. Eu não teria como, mas seria mais barato tomar empréstimo para comprar um avião do que abrir uma quitanda.

Nem Doria, nem Huck, nem nenhum dos tomadores deste crédito gostosinho têm culpa de aproveitar esse doce que o governo de Lula colocou em suas bocas, o de Dilma não tirou e o de Bolsonaro, apesar dos latidos e grunhidos sobre ‘caixa-preta do BNDES, tampouco tirará de suas bocas. E, no entanto, todos eles são culpados, assim como todos nós outros que não compramos aviões. Somos nós, a sociedade brasileira, da qual ninguém pode se apartar nem se eximir, que constituímos esse sistema, cientes ou não cientes do que estamos fazendo. Os cientes, por conhecimento do que lhes beneficia. Os não cientes, por ignorância do que lhes afeta.

Somos nós que batemos palmas para as celebridades em seus closets e jets instagramáveis. Somos nós que não enxergamos as estruturas por baixo das conjunturas, e de novo batemos palmas quando as medidas conjunturais parecem positivas, ainda que em pouco venham a se mostrar insustentáveis como vôos de galinhas. Somos nós que pouco pensamos naquilo que nos beneficia e que eventualmente, ou quase sempre, prejudica os outros. Por mais que exista comportamentos individuais exemplares, o nosso comportamento social é deplorável. Mas o impacto do comportamento social é imenso, tão imenso que o comportamento individual acaba por enxugar gelo. E assim vamos, dia após dia, ano após ano, e pelas décadas e séculos da nossa história, para quem sabe mudar esse padrão  quando formos milenares – se um dia formos, se um dia chegamos lá, se um dia não vier uma nuvem de fumaça tóxica que nos consuma todos.

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