O botafoguense e o Flamengo num dia de fúria sueca

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Desde garotinho que não sou Flamengo à despeito de todo o futebol que Zico jogou. Se havia um time para se torcer quando eu era garoto, ali pelos nove, dez e onze anos, esse time era o Flamengo. Se havia um jogador para ser idolatrado na mesma época, Zico! Mas eu sou palmeirense de família e pronto.

Um dia, comprei num sebo um exemplar de O Cego de Ipanema, livro de 1960 com uma coletânea de crônicas que Paulo Mendes Campos havia publicado antes na imprensa. Eu comprei esse exemplar porque ele tem um autógrafo do autor, dado para o José Augusto, em Recife, em 16/11/1961. Dezesseis de novembro era o aniversário da minha mãe.

E neste livro há esta crônica cuja imagem está ali em cima. Paulo foi um notório botafoguense, o que era fácil nas décadas de 1950 e 1960. Em 1962, metade do time do Brasil que jogou a final da Copa do Mundo no Chile era do Botafogo de Futebol e Regatas: Nilton Santos, Didi, Garrincha,  Zagallo, Vavá e Amarildo.

Paulo poderia também ter sido um flamenguista, porque o Flamengo foi duas tri-campeão, em 1942/43/44 e 1953/54/55. Muitos brasileiros tornaram-se flamenguistas neste período, principalmente no Norte e Nordeste do Brasil, onde os investimentos norte-americanos no esforço de guerra resultaram em antenas em Natal e Belém que retransmitiam ondas de rádio vindas da então capital brasileira. Esta torcida que nasceu com o rádio consolidou-se com o cinema, através do Canal 100, um filmete sobre futebol que era exibido antes dos filmes principais. Eu mesmo assisti a muitos filmes do Canal 100 na minha infância e adolescência, já no final dos anos 1970 e começo dos 1980, no Cine Votuporanga, no Cine Central e no Cine São Bento. Já eram jogos do Flamengo de Zico, Andrade, Tita, Júnior, Leandro, Adílio e Raul – e o Flamengo sempre ganhava. Se perdia, o jogo não era exibido.

O que me intrigou na crônica de Paulo Mendes Campos, porém, é o seu desfecho, que adianto aqui. Vou contar só o final, sem dizer como se chegou lá.

Um sueco enorme queria bater em Paulo, (que não era chamado pelos amigos de Paulinho apenas por razões afetivas, parece que era um homem pequeno) e a confusão começou a se desfazer quando o sueco entendeu que Paulo era brasileiro; em seguida deu-se o seguinte diálogo:

Sueco: Brazil?! No American? Brazil?

Paulo: Yes, Brazil!

Sueco: Brazil? Flamengo!! I Rubens, I Flamengo! You, Flamengo?

Paulo: Flamengo! Yes! Flamengo! The greatest one!

Como é que um sueco se torna flamenguista nos anos 1950? Difícil explicar, complicado supor qualquer coisa. Nos anos 1950, o Flamengo basicamente era um time estadual, vencedor apenas no Rio de Janeiro, que por sua vez nem era um estado  propriamente dito, era praticamente uma cidade importante e com um poder de influência imenso, porém restrito ao âmbito nacional. A Copa Libertadores da América, por exemplo, foi criada em 1960 e os únicos times brasileiros que chegaram às finais nos primeiros 10 anos do torneio foram o Santos, que ganhou duas, e o Palmeiras, que perdeu duas.

Mesmo as seleções brasileiras campeãs do mundo em 1958, 1962 e até 1970 tinham pouquíssimos jogadores do Flamengo. Considerando-se o time titular que jogou cada uma das finais, eram jogadores do Flamengo Zagallo, em 1958, e Brito, em 1970. Dentre as escalações titulares de seleções brasileiras que foram campeãs do mundo, a de 1994 foi a que tinha o maior número de jogadores “criados” no Flamengo, embora nenhum deles jogasse mais pelo clube quando foram campeões: Jorginho, Aldair, Zinho e Bebeto.

Ou seja, como um time sem muita expressão internacional conseguiu um torcedor sueco  tão apaixonado a ponto de impedir uma briga? Não sei. E talvez nem importe, porque tudo pode não ter acontecido fora da imaginação do escritor. Paulo era poeta e cronista. Cronistas não costumam mentir, já os poetas mentem e fingem. E fingem tão completamente que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem.

 

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