Lula preso e Lula solto

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Em 28 de janeiro de 2018, eu estava morando nos EUA e lá escrevi esse texto, que não foi publicado porque o blog ainda não tinha nascido:

Ontem uma das minhas filhas me perguntou qual super-poder eu gostaria de ter. Não soube responder, pois nem mesmo na infância eu gostava de super-herois – eu gostava mesmo era bicicletas, sobre as quais meu corpo ganhava asas e os horizontes se expandiam.

Mas hoje eu confesso que gostaria de ter um super-poder: o de entender claramente como e porque Lula foi condenado, se o processo está correto e quais implicações decorrem disso. Gritei shazan, girei o martelo, cheguei a invocar Grayskull, e nada…

Ouço dizerem que no processo do apartamento não há provas de uso, desfruto, posse ou outros termos que no Direito têm significados muito precisos. Ouço também afirmarem que, independente de provas, a condenação se deu pelo conjunto da obra.  Alguém fala que o julgamento é político. Outro discursa que há dois pesos e duas medidas. Me esforço profundamente e nada deduzo dessa algaravia incompreensível.

Pela janela da web vejo comemorações que não me atraem, piadas que não fazem rir, críticas que discordo e defesas que me assustam. Acho que é só o Brasil sendo terrivelmente brasileiro nos seus preconceitos e superficialidades. Tento ser otimista pensando que as instituições estão funcionando. Mas a realidade me esbofeteia mostrando que o Judiciário age por despeito, que a Justiça no Brasil não é cega, que os extremos se acirram e que a única união que existe hoje é a do MDB a fim de “estancar a sangria”.

Deus, se vier, que venha armado.

Hoje, 8 de novembro de 2019, de volta há bastante tempo ao Brasil, sai a notícia de que Lula será solto. Em nenhum momento defendi o brado “Lula livre”, o mais próximo que cheguei disso foi o voto em Fernando Haddad no segundo turno de 2018, por dois motivos claros: gosto de Haddad e acho que é um dos poucos políticos de idéias (e não concordo com o papel de marionete que assumiu naquela campanha) e não ando na mesma calçada que Jair Bolsonaro.

Não comemoro Lula preso nem Lula solto. Acho simplesmente que Lula não teve a mesma justiça que os outros brasileiros, em nenhum momento. É preciso dizer, aqui, que  isso não significa aceitar o que os governos do PT fizeram de errado nem querer destruir o que eles fizeram de certo. Entre o preto e o branco da burra polarização que infesta o nosso país, há muitos matizes e um infinito arco-íris, com muito mais que apenas sete cores.

Li hoje um comentário de um filósofo que admiro dizendo que Lula é o único que sabe perdoar e por isso tem condições de pacificar o país. Não sei se Lula sabe perdoar, nunca estive com ele. Mas discordo totalmente que Lula pacifique o país. Há uma imensa quantidade de brasileiros que não querem ouvir Lula muito menos querem seu perdão. São quase 58 milhões, considerando apenas os que tem título de eleitor e votaram contra ele no ano passado.

Os tempo serão difíceis. E não porque o STF é isso ou aquilo, Lula é assim ou assado, Bolsonaro governa aos trancos e barrancos. Não! Nós é que estamos todos doentes, cegos e inaptos para construir uma mudança. Não sei para onde vamos. Sei que estamos no lodaçal.

Acompanhei superficialmente a discussão entre os jornalistas Antonio Nunes e Glenn Greenwald. Por coincidência eu estava online na hora que a notícia foi ao ar e de ontem para hoje eu li alguns comentários que apareceram na timeline do meu Facebook, li algumas notícias nos sites que acompanho. Basicamente, eu acompanho os portais da ‘grande mídia’ e alguns outros independentes que se mostram minimamente sérios e com alguma tentativa de isenção, embora eu não espere jornalismo isento, acho que isso não existe. O que eu acho que existe é um veículo mostrar claramente que partido toma e a partir daí tratar com respeito a notícia e o outro lado que não defende. Este aspecto do desrespeito é o que me afasta dos sites, portais e canais muito engajados; não gosto das maledicências, dos disse-me-disse, das indignações exageradas e das ironias – ironia, depois de Machado de Assis, precisa ser usada com inteligência demais.

O que eu vi nas reações foi simples: quem normalmente apoia Lula, tomou o lado de Glenn Greenwald; quem normalmente apoia Bolsonaro, tomou o lado de Augusto Nunes. Claro sinal da imensa merda em que navegamos atualmente no Brasil. Ninguém deve partir para a agressão física em nenhum momento, ainda que isso seja utópico, mas ante Rambo e John Wick, eu tento ficar sempre ao lado de Gandhi. É o lado que não faz piada nem dá risada com o dedo que Lula perdeu, mas não admite que se elogie a tortura.

Eu vi o vídeo e não entendi porque Greenwald chamou Nunes de covarde, mas era nítida sua irritação e seu exaltamento. Depois, ouvi o trecho em que Nunes fala, em tom de ironia, sobre a criação dos filhos de Greenwald. Nunes pisou no calo, foi um claro golpe baixo. Não se fala dos filhos, da esposa ou do marido; se outros membros da família não são pessoas públicas, não devem ser tratados publicamente. Assim como não se deveria gozar a morte da mulher de Lula, como aconteceu.

Um dia, se minhas filhas me perguntarem de novo se eu gostaria de ter um super-poder, talvez eu responda que gostaria de ter o super-poder de fazer o mundo tolerante. Eu não acho bonito xingar o outro, embora já tenha ligado. Eu não acho bonito fazer piada de mau gosto, embora já tenha feito. Mas a gente amadurece, né? Estamos todos muito verdes e imaturos como sociedade, daí vivermos o que estamos vivendo. Passamos uma campanha eleitoral discutindo corrupção para acabarmos elegendo um presidente que fazia rachadinhas nos gabinetes dos filhos também políticos – a diferença era só o tamanho do cofre.

Mas, há de se ter fé em alguma coisa, um dia esse país vai dar certo, esse é um país que vai pra frente…

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