As falas do Ministro Paulo Guedes

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Decorridos alguns dias de mais uma fala estúpida do Ministro Paulo Guedes, a poeira ainda segue alta. Ainda há pouco vi um post, cujo autor desconheço, dizendo assim: “Paulo Guedes não estava falando de domésticas, propriamente. As domésticas não iam pra Disney nem com o dólar por 1,80. Paulo Guedes estava falando de você classe média, que começou a viajar de avião pra todo lado nessa época e achava que era rico. Você é a doméstica do Paulo Guedes.”

Bom, eu não assinaria este post, nem o compartilhei. Não gosto da parte final dele. Mas concordo integralmente com a terceira frase: Paulo Guedes estava falando de você, classe média. (Pausa para aula de gramática: coloquei uma vírgula que o autor não havia colocado, necessária para separar o vocativo da frase principal).

Não me lembro se as domésticas iam à Disney quando US$ 1.00 era comprado por míseros R$ 1,80. Isso foi no passado, um passado do qual o Brasil dá mostras de já ter se esquecido, apesar de ser um passado nem tão distante. Houve um momento, em junho de 1996, em que o dólar e o real estavam em paridade de um para um, ou seja, com R$ 1,00 o brasileiro comprava US$ 1.00 e fazia a festa. Este valor de R$ 1,80 lembrado pelo Ministro Guedes aconteceu em janeiro de 1999, quando Fernando Henrique Cardoso abria as cortinas do seu segundo mandato, aquele que veio após a emenda da reeleição a suspeitos 200 mil dólares o voto.

No último ano de seu primeiro mandato como Presidente, ainda em julho de 1998, FHC valorizava o controle da inflação e seu efeito de “inclusão social” dando como exemplo o fato de sua cozinheira ter viajado para Grécia e Portugal com suas próprias economias. FHC fazia propaganda da grande realização de seu governo no início da campanha eleitoral em que seria reeleito. Porém nem todas as cozinheiras brasileiras eram empregadas domésticas do Presidente da República e muito provavelmente poucas empregadas domésticas brasileiras foram à Disney naqueles  tempos. Domésticas não iam, mas classe média ia.

Classe média é um conceito mais sociológico do que econômico. Ele nomeia uma massa de trabalhadores empregados ou autônomos que se espreme entre os de baixo, que têm muito pouco a perder e quase nenhuma chance de ascensão, e os de cima, que dificilmente perdem o que têm e contam com melhores chances de obter mais. Assim, a classe média passa a vida tentando escapar da pobreza que insiste em lhe agarrar pelos tornozelos e suando para segurar na mão que a riqueza resiste em lhe oferecer para ajudá-la a avançar pela escarpa da montanha e sentar-se no seu topo. Mas naqueles idos de final de um século e começo do outro, a mão da riqueza acenou com alegria para esta classe média depois que a moeda brasileira se estabilizou (controle da inflação) e enquanto o mundo valorizava nossos produtos de exportação (boom das commodities). Surgiu no Brasil o termo ‘nova Classe C’ para designar esta classe média que através do consumo parcelado, finalmente, fazia crescer o mercado interno brasileiro. Se não fosse na base do ‘quer pagar quanto?’, era utilizando o ’10 vezes no cartão’, bordões publicitários que quase ninguém esquece. O parcelamento fez a classe média lotar os aviões e fez também os futuros eleitores de Paulo Guedes passarem a chamar os aeroportos de rodoviárias. Ah, desculpe, Paulo Guedes não foi candidato, é verdade, ele apenas avalizou um candidato…

Além do preconceito escancarado, a fala de Paulo Guedes traz uma peculiaridade. O Ministro menciona o dólar a R$ 1,80, valor que viria a ser atingido entre 25 e 26 de janeiro de 1999, mais ou menos 15 dias depois do fim do controle cambial, quando o dólar passou a variar conforme o mercado e soubemos então que o Banco Central vendia informações privilegiadas a alguns operadores. Foi quando quebraram os bancos Marka e Fonte-Cindam e quando diversas empresas estavam endividadas em dólares viram o fundo do poço se parecer com um alçapão. Naquele começo de 1999, faz só 20 anos, em pouco mais de um mês a moeda americana saiu de R$ 1,30 e chegou R$ 2,00. Paulo Guedes se recorda justamente da cotação que bagunçou o mercado.

Eu acho que não é coincidência. Essa lembrança denota claramente onde estão os olhos do operador privado que hoje ocupa o cargo público. Seus olhos estão no ambiente privado. No mercado. Mais reveladora ainda é a fala de Guedes quando, já indicado como futuro ministro, ele circulava pelo Congresso em Brasília e disse aos congressistas que não precisava do orçamento da União para 2019 que o Congresso havia aprovado, porque ele faria o seu próprio quando assumisse o cargo. Disse e não desdisse, decerto na época acreditava ainda que ninguém daria bola para uma fala equivocada, afinal fora a boca do midas que falara. Entretanto, entre os muitos aspectos que o governo Bolsonaro está deixando muito claros é que não é mais permitido relativizar as falas dos agentes públicos. Bolsonaro despeja homofobias, misoginias e autoritarismos porque homofobia, misoginia e autoritarismo são valores que norteiam seus pensamentos e suas ações. Da mesma forma, Paulo Guedes fala com base naquilo que o norteia: a vida privada. O mercado.

Guedes foi professor universitário no Brasil e no Chile, em posições relativamente temporárias que não o levaram à carreira de pesquisador na sua área de conhecimento. Hoje, parece que ele não queria, mas naqueles anos 1980, quando o Brasil claudicava constantemente e vivia em busca de soluções heterodoxas, ser economista e pesquisador em instituições de ensino dava uma boa projeção e um enorme lustre no ego. Depois, a partir dos anos 1990, vira dono de escola voltada para o mundo executivo e gestor de investimentos em bancos privados. Tendo estudado a vida inteira às custas do estado brasileiro – colégio militar, faculdade em universidade federal e doutorado no exterior com bolsa do CNPQ, Paulo Guedes chega em 2019 no Ministério da Economia sem nenhuma passagem anterior pela administração pública. E chega prometendo facadas no Sistema S, venda de estatais e reformas profundas nos regimes previdenciário, tributário e administrativo federais. Logo no primeiro ano, brigou com um deputado que o chamou de tigrão com aposentados e servidores e de tchutchuca com os empresários. Até o momento, a reforma da previdência passou (por força do Congresso, não do Executivo), mantendo privilégios de militares e judiciários, e o Sistema S continua com seus R$ 17 bi anuais intactos.

Guedes chamou servidores de parasitas e ofendeu as domésticas. No fundo, ele reproduz falas rotineiras da ignorante elite brasileira que ele representa e da qual recebe aplausos. A elite que frequenta escolas e obtêm diplomas sem aprender a relacionar assuntos, construir argumentos e identificar falácias. Num moto-contínuo, nosso atual Ministro da Economia, bem como diversos outros próceres públicos ou privados, são fruto e alimento de uma sociedade que estuda para cumprir o requisito de obter um bom emprego, e a partir daí dar uma banana para a educação e viver em função de acumular na pessoa física o máximo possível que a pessoa jurídica puder dar, tornando-se empresários ricos donos de empresas pobres. E essa turma fala, e fala grosso, e fala grosso acreditando que fala a verdade. A verdade que o mercado é soberano e inteligente o suficiente para guiar as decisões macroeconômicas.

Considerando que vivemos hoje sob um governo cujo capitão-mor está sempre a citar João 8, 32, “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, seria prudente para nós, eleitores, ouvirmos também Mateus 15, 10-18: “Ouvi e entendei! Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isto sim o torna impuro. Não entendeis que tudo o que entra pela boca vai para o ventre e daí para a fossa? Mas o que sai da boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro. É do coração que procedem más intenções.”

É do coração que vêm falas como estas: “Ela é feia mesmo, não é nenhuma mentira”; “Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo.”; “Não se assustem então se alguém pedir o AI-5.”; “O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita.” e “Empregada doméstica indo para a Disney direto, uma festa danada”.

Não fui à Disney naqueles tempos de dólar a 1,80. Fui em 2017, não reparei se havia empregadas domésticas, mas Marcos Nogueira, do blog Cozinha Bruta, olhou e enxergou as domésticas brasileiras na Disney, em 2016: eram as babás.

*****

Para cotações do dólar: http://www.yahii.com.br/dolardiario99.html

Para a fala de FHC: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc15079805.htm

Para o Cozinha Bruta e as babás na Disney: https://cozinhabruta.blogfolha.uol.com.br/2020/02/15/a-festa-das-domesticas-brasileiras-na-disney/

Para mais um bom comentário sobre as falas de Paulo Guedes: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2020/02/declaracoes-de-guedes-revelam-o-destempero-pessoal-de-uma-mente-autoritaria-e-egolatra.shtml

Para um longo e cuidados perfil de Paulo Guedes: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-fiador/

Para as falas equivocadas de Paulo Guedes: http://www.google.com.br

 

 

 

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