Chico Buarque e essa gente

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Quando se trata de Chico Buarque, de saída eu coloco duas premissas na mesa: 1) sou fã e defendo sua produção artística, inconteste; 2) o sarrafo está lá em cima, onde o próprio artista o colocou desde o primeiro disco em 1966. Do Chico Buarque, eu ouço tudo e leio tudo, tenho tudo sempre à mão e visito e revisito frequentemente.

Essa Gente, o romance mais recente, saído agorinha mesmo pela Companhia das Letras, é um livro inteligente, bacana e sedutor, em que a história aparente revela o drama subjacente.

É a história de um escritor decadente, Manoel Duarte, e Chico Buarque vai contando a vida de Manoel Duarte em capítulos curtos, fragmentos de diários, cartas, emails, descrições do próprio narrador, que são narrados por vozes diversas: um narrador, o próprio personagem principal, suas ex-mulheres, seu editor, seus vizinhos, seus amigos e conhecidos e até um repórter de jornal.

É um livro urgente Essa Gente, porque Buarque precisa contar a história de Duarte.

O escritor decadente vive uma história tragicômica, um tanto até farsesca, mas verossímil, muito verossímil. Ele se envolve com uma mulher, tendo duas ex-mulheres para as quais e das quais continua dando e demandando atenção. Há seu filho, há o cachorro do filho. E está ali presente o Brasil atual em seu suco concentrado do Rio de Janeiro, precisamente do Leblon e do Morro do Vidigal. O Rio é o resumo do Brasil, é o resumo e é ainda o posfácio e o prefácio do Brasil. O que aconteceu no Brasil, aconteceu no Rio. O que acontece no Rio, acontecerá no Brasil. Buarque vê isso e nos conta na história de Duarte.

Todos estão ali, nas cento e noventa e duas páginas de um livro mais grosso do que precisava, mas também suave ao toque e agradável no manejo. Toda essa gente que vê no outro essa gente que empaca a pátria amada, ou toda essa gente que é sempre destratada por essa gente que ergue estranhas catedrais.

Você conhece, na história do Brasil, um pecuarista que desmata?

Você conhece uma decoradora que usa os clientes para subir na escala social?

Você conhece uma juíza federal que se gaba de ser juíza federal?

Você conhece um advogado figurão, sócio de clube de bacana, que xinga mendigo?

Você conhece um pastor evangélico que usa a fé como negócio e os seguidores como produtos?

Você conhece mães de artistas que fazem estapafúrdias exigências mil para os camarins de seus filhos?

Você conhece um rico que chama o porteiro de ‘esse merda’ porque o porteiro perde o timing correto de abrir a porta do elevador?

Você conhece profissionais dedicados e disciplinados que dão conta do seu recado e até mais do que isso, vez ou outra?

Você conhece uma senhora que trocou de religião, deixando a umbanda para seguir a leitura livre dos Evangelhos?

Você conhece brancos empedernidos que não morariam no mesmo prédio que um negro?

Você conhece polícia que mata quem está rendido e é aplaudida pelos populares curiosos que seguiam a operação?

Você conhece estrangeiros que vem morar no Brasil e se envolvem em projetos comunitários?

Você conhece um militar que só glorifique seu deus o tempo todo?

Essa gente toda está em Essa gente, o mais novo romance de Chico Buarque, que retrata com a pressa de uma música o estado das coisas brasileiras. Este é o drama subjacente, que se revela quando lemos a história aparente.

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