A FLIP flopou na escolha da homenageada de 2020?

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Polêmica no mundo da literatura brasileira: a FLIP 2020 vai homenagear Elizabeth Bishop, reconhecida, renomada e premiada poeta americana que viveu no Brasil de 1951 a 1971. Além disso: era homossexual e escolheu viver aqui porque se apaixonou por uma brasileira, Lota de Macedo Soares, arquiteta que cuidou da construção do Aterro do Flamengo. Mais além ainda: Lota era muito próxima de Carlos Lacerda, governador da Guanabara naqueles tempos e apoiador do Golpe de 1964, e Bishop deixou escritos em que apoiava o golpe dos militares, que numa carta a um amigo americano ela chamou de  “revolução rápida e bonita”.

Nestes tempos bicudos que estamos vivendo, quando ministras fazem dancinha do azul e rosa, ou candidatos a presidente associam filhas a fraquejadas espermatozoidiais, escolher uma poeta assumidamente gay parece ter passado batido na polêmica dos literatos. Eu acho importante. Eu acho acertado. Eu acho que esse debate está longe de ser superado, muito longe, mais adiante ainda do que muito longe…

Mas prevaleceu o apoio ao Golpe de 1964. O fato de ela ter apoiado o Golpe deve impedir a homenagem? Deve fazer com que não se leia sua poesia?   As posições políticas de um artista devem se sobrepor ao seu trabalho artístico?

É uma pergunta difícil e a resposta não é fácil, porque não há uma linha clara e unívoca que valha para todas as pessoas igualmente. São muitos os artistas sobre os quais ficamos sabendo, a posteriori, de eventuais falhas de conduta, as mais variadas. Quando acontece com um artista que admiramos, o que fazer? Para mim, procuro dissociar a obra artística da vida pessoal do artista. Às vezes dá, às vezes não dá. Difícil…

Dizem ainda que sua leitura do Brasil é elitista e americanizada. Aqui, confesso que não posso comentar nada, nem mesmo sobre o valor literário da sua poesia eu posso dar uma opinião, porque nunca li. A vida da gente que escreve e gosta de livros é feita também de lacunas, que a gente vai tentando preencher ao longo do tempo. E estas lacunas são um desafio cada vez mais difícil de ser superado, porque um acontecimento chama um livro, um livro chama uma leitura, uma leitura chama outra leitura e quando uma leitura se impõe, uma outra lacuna se abre. Viver é assim, um eterno e repetitivo escolher.

Sei que há muito escritores brasileiros – ou, posto de outra forma, sei que há muitxs escritorxs brasileirxs, mas eu ainda não entendi muito bem essa grafia apesar de estar convencido do poder quase inigualável da linguagem na constituição das relações humanas – que ainda não foram homenageados pela FLIP e que mereciam ser. Abaixo, a lista de quem já foi homenageado, ano a ano, desde o início da Festa:

2003 – Vinicius de Moraes

2004 – Guimarães Rosa

2005 – Clarice Lispector

2006 – Jorge Amado

2007 – Nelson Rodrigues

2008 – Machado de Assis

2009 – Manuel Bandeira

2010 – Gilberto Freyre

2011 – Oswald de Andrade

2012 – Carlos Drummond de Andrade

2013 – Graciliano Ramos

2014 – Millôr Fernandes

2015 – Mário de Andrade

2016 – Ana Cristina Cesar

2017 – Lima Barreto

2018 – Hilda Hilst

2019 – Euclides da Cunha

E, dentre os que ainda não foram homenageados, e mereciam ser, há várias nomes. Reproduzo aqui uma lista que o UOL fez ontem: João Cabral de Melo Neto, Carolina Maria de Jesus, Cecília Meireles, Monteiro Lobato, Rubem Braga, Sérgio Buarque de Hollanda, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo, Tatiana Belinky, Haroldo de Campos, Paulo Leminski, Murilo Rubião, Campos de Carvalho, Cora Coralina, João Antonio, Pagu, Antonio Candido, Castro Alves.

Da lista acima, se eu pudesse escolher apenas um, seria o Érico Veríssimo. E se eu pudesse acrescentar apenas um, seria o Fernando Sabino. E se a FLIP homenageasse escritores vivos, seria a Lygia Fagundes Telles, na cabeça!

Chego ao que pretendo ser o final desta crônica sem ter uma opinião clara sobre a escolha da homenagem a Elizabeth Bishop na FLIP 2020. Poderia ainda usar mais algumas linhas para falar do caráter elitista da FLIP e como ela tenta não ser apenas um enclave lítero-turístico branco numa cidade partida. Mas eu me alongaria neste texto que por diversas vezes me deu vontade de apertar a tecla delete. E antes que a vontade reapareça, clicarei na botão publicar.

 

 

 

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