Comfort music, clássicos e um domingo de sol

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Essa vem d’O Globo, com dados do Spotfy e do Deezer: aumentou o número de usuários que criaram listas com os nomes nostalgia ou de volta ao passado. “Chamam atenção o álbum “Acabou chorare” (1972), dos Novos Baianos, que teve aumento de 30% nos plays; “A tábua de esmeralda” (1974), de Jorge Ben Jor, com 28%; “Chega de saudade” (1959), de João Gilberto, 17%; “Elis e Tom” (1974), 8% e “Clube da esquina” (1972), de Milton Nascimento e Lô Borges, 14%”, enumera o jornal. Houve efeito similar na lista de livros mais vendidos. “Drácula”, “Guerra e Paz”, “A Peste” e “O amor nos tempos do cólera” vieram acompanhar “1984” que já bombava há uns meses.

O jornal, pela boca dos especialistas entrevistados, fala em comfort music e ‘livros do coração’. Mais ou menos a mesma coisa as duas expressões, elas remetem ao conceito norte-americano de comfort food que representa a comida simples e que a pessoa se acostumou a comer na infância, feita por alguém da família ou por um restaurante pequeno, local, comandado por uma pessoa conhecida, na sua hometown – norte-americanos são quase nômades entre o Atlântico e o Pacífico, mudam-se com frequência e com facilidade entre cidades de estados diferentes, e carregam consigo, eternamente, a alma da cidade em que cresceram. Se eu fosse hipster ou millenial, atacaria agora com uma #quemnão?, mas eu não sou nada disso. Sou quase um velho de 50 anos e trago no meu íntimo marcas profundas e indeléveis das coisas confortáveis de um tempo que o tempo era mais meu amigo do que meu carrasco, marcas que tentei apagar num passado que também já é remoto e fracassei, porque elas voltam, brotam e rebrotam para sempre indicarem de onde eu vim, o que me fez, como eu sou.

Busco colocar no cardápio aqui em casa comidas que me evocam a casa de minha avó com seu mexidão completo, que misturava na sua frigideira mais velha umas colheradas de arroz com carne moída e dois ovos quebrados por cima, vigorosamente misturados, ou o macarrão bem cozido com molho de tomate e linguiça calabresa que minha mãe fazia e que décadas depois continua me esperando no forno quando vou com a esposa e as filhas visitar meu pai no interior.

Ai, que saudade que tenho, da infância da minha vida, da aurora da minha vida que os anos não trazem mais. Se não são estes os versos exatos de Casemiro de Abreu, a culpa é da preguiça e não do mecanismo de busca. Não quero algoritmos que mudem meu ritmo de pensar. A crise do presente é tão profunda que provoca comportamentos paradoxais, nos fazendo temer o futuro em que não sabemos por quanto tempo e por quantas vezes conviveremos com um vírus que nos fecha em casa enquanto buscamos no passado a lembrança de que já fomos mais felizes e portanto temos estofo para atravessar essa quarentena.

A primeira definição de nostalgia no Dicionário Houaiss é “melancolia profunda provocada pelo afastamento da terra natal”, um sentimento de tristeza e de abatimento que leva à prostração e a divagações, e neste estado desatamos a perguntar internamente como chegamos até aqui, por que estamos assim, o que faremos a partir disso? Não acabou o chorare nem chegaram os alquimistas, as águas de março não prometeram vida no teu coração nem posso pedir para ela voltar, porque nada será como antes amanhã.

Rememorar esse passado em que o Brasil foi outro, foi um Brasil que transformou uma derrota de virada no Maracanã em goleada com chapéu dentro área em Estocolmo, foi um Brasil que copiou o jazz para colocar Wave nas partituras e improvisos de Nova York a Tóquio, foi um Brasil que de Macunaíma e Vidas Secas desaguou em Guimarães, Lygia e João Cabral, foi um Brasil em que até mesmo pensar no Brasil do futuro, o futuro que nunca chegou, era mais gostoso, porque o futuro que chegaria seria glorioso e redentor, rememorar esse passado dá a impressão de ser a fonte de energia para atravessar as luas e olha o sol que, não tendo nada que ver com isso, nasce e renasce.

Mas esse passado, esse Brasil que construía e se apresentava, se foi e hoje é um longo feliz ano velho, tão velho que na semana entre 13 e 19 de abril, um livro de Jane Austen superou “A sutil arte de ligar o foda-se”, o foda-se que General Heleno mandou para o Congresso e é da mesma natureza que o ‘e daí?’ que o presidente Messias mandou para os cinco mil mortos de covid-19. Muito foda-se para nenhuma sutileza, nada de razão nem de sensibilidade, só orgulho e preconceito.

 

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