Tubaína, cloroquina, ainda bem…

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Enquanto eu pendurava as sacolas que uso no supermercado no varal improvisado onde elas secariam ao sol depois de passarem um tempo mergulhadas numa bacia em solução de água sanitária eu pensava que não queria pensar em política, nem falar de política, nem ler sobre política, nem ouvir sobre política. Então me lembrei de uma citação de Brecht sobre o analfabeto político que meu pai me mostrou quando eu era garoto e eu usei aquilo durante anos a fio em diversas situações para poder falar mais e mais sobre politica. Depois de adulto e depois de calejado, o que são dois estágios diferentes da nossa vida, porque primeiro se torna adulto mas só depois, bem depois, é que se vira um calejado, eu invoquei o Raul Seixas de Só pra variar: “é uma pena eu não ser burro / assim eu não sofria tanto”.

É sério que o atual presidente disse que “a direita toma cloroquina e a esquerda toma tubaína”? Sim, é sério, ele disse. Tapei o nariz, preparei o estômago e dei play no vídeo que ilustrava a matéria. Ver Bolsonaro falando sempre me dá engulhos, não tenho resistência para isso, aguento ver as piores cenas de Breaking Bad mas atualmente não consigo sair ileso de uma falinha presidencial que seja. Enfim, não só fez a piada e a rima entre cloroquina e tubaína como disse ainda que a democracia é boa por isso, toma quem quiser. É mais um exemplo, dentre incontáveis mais uns, de que ele não tem a mínima ideia das consequências dos atos de um presidente: quando um presidente fala, ele encoraja as pessoas a sair fazendo o que ele falou, seja permitido ou não. Esse poder é a base de um regime presidencialista, algo que é iminentemente personalista, por mais que outras leis e outros poderes o contrabalancem. Estamos perdidos.

E já me pensava tão perdido quando outra dúvida apareceu. Não apenas o atual disse o que disse, mas também o ex-presidente falou algo como “ainda bem que a natureza criou esse monstro chamado coronavírus”? Sim, falou. Em entrevista ontem à revista Carta Capital, Lula disse isso mesmo, com a ressalva de que “contra a vontade da humanidade”, foi uma boa ideia que a natureza teve, para que assim os “cegos comecem a enxergar que só o estado é capaz de dar solução a determinadas crises”. Ai… ai… ai…

Muita gente discorda, mas acho que é verdade que só o estado seja capaz de dar solução a determinadas crises. Mas isso ser uma verdade está longe, muito longe, a anos-luz de distância, de justificar um estado como o brasileiro, em que o Senado Federal custa doze milhões de reais por dia, em que uma em cada três cidades não gera receita suficiente para cobrir suas despesas com a prefeitura e a câmara municipal e em que o número total de funcionários públicos nas três esferas governamentais cresceu 83% de 1995 a 2016. Nada disso seria escandaloso se recebêssemos deste estado serviços públicos ‘padrão Fifa’ e se não descobríssemos mensalões, petrolões, rachadinhas e uma lista infindável de obras daquele-jeito-você-sabe-como.

E pelo que tenho aprendido, a natureza não criou alguma coisa perguntando se a humanidade concordava ou não. A natureza não se importa com a humanidade, porque não tem que se importar. Parece estranho dizer, mas a natureza evolui naturalmente, ou seja, por uma força inerente, contínua, independente do que a humanidade, a canidade, a felinidade, a insetidade ou a piscidade desejam. Nós aqui, os seres sapiens, é que atribuímos valores à evolução da natureza. E por sapiens que nos supomos teríamos mais cuidado com ela, não faríamos Tucuruí nem Belo Monte, tampouco teríamos coberto o Salto de Sete Quedas nem tacado fogo no índio Galdino. Sapiens

Longe de mim igualar Bolsonaro e Lula na tábula rasa das bobagens ditas pelos políticos. Não faria e não farei isso. De Lula, por mais que tenha defendido um assassino como Cesar Battisti, nunca se ouviu uma palavra de homenagem a um torturador. Se nada mais houvesse, isto já os diferenciaria. Porém, está cada vez mais claro que o Brasil não precisa agora de um nem de outro. O mal é que enquanto um deles vocifera na frente da tela do seu computador, isolado em seu escritório residencial, o outro, este está atrapalhando o máximo que pode.

1 comentário em “Tubaína, cloroquina, ainda bem…”

  1. Muito triste! Estamos nas mãos, não de um louco, mas de um perverso. Bj

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