Quarup, de Antonio Callado

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Há momentos na vida da gente em que uma grande ajuda pode vir de livros escritos já há bastante tempo. Hoje, eu sinto que a leitura, ou a releitura, de Quarup, é primordial.

Quarup foi escrito por Antonio Callado e publicado em 1967.

A trama do romance se desenvolve em torno da vida de Nando, um jovem padre que acredita no mito do bom selvagem e por isso quer reproduzir em pleno século XX o que os jesuítas fizeram nos séculos dezesseis e dezessete: catequizar os indígenas e trazê-los para a vivência cristã e católica.

Esta história se passa nas décadas de 1950 e 1960. Ela começa com o padre Nando no mosteiro em Recife, onde ele vive e se prepara para partir para sua missão. Saindo de Recife, ele passa um período na cidade do Rio de Janeiro para se enturmar com a burocracia do Serviço de Proteção ao Índio e enfim tomar lugar numa das expedições ao Parque Indigena do Xingu – que naquele momento estava prestes a ser oficialmente criado pelo presidente Vargas.

Neste ponto, temos um longo trecho do romance em que a ação é ambientada no Xingu, o lugar onde Nando tenta colocar em prática este seu projeto de catequização. Mas não só isso – ele quer também cumprir o desejo de um antigo amigo de coletar um punhado de terra do centro geográfico do Brasil e trazer para a cidade, como um gesto simbólico de libertação dos brasileiros através da conexão com o Brasil profundo.

Após atingir o centro geográfico, Nando volta para Recife e começa a trabalhar nos movimentos de alfabetização de adultos. Daí para a luta armada, já no contexto de resistência ao golpe militar de 1964, é um pulo.

Então o que vamos ver no romance é uma intrincada trama em que Nando vive seus dilemas morais: primeiro, em relação ao sexo, que na visão dele é um pecado; depois, em relação ao sacerdócio e ao trabalho com o povo. Ao longo dessa luta pessoal, ele se envolve com diversas personagens que representam bem os variados tipos daquele Brasil:

  • A jovem rica que estuda artes e namora um revolucionário;
  • O jovem revolucionário que atua junto das ligas camponesas;
  • O político que usa a estrutura governamental apenas para subir na vida;
  • O burocrata bem-intencionado que luta para manter o parque livre das investidas dos fazendeiros, garimpeiros e grileiros;
  • Um casal de pesquisadores ingleses que vem estudar o Brasil e com isso fazem um contraponto de costumes;
  • A moça da capital, amante de um político do qual não consegue se afastar;
  • O militar que suspeita dos comunistas;
  • O tropeiro que arregimenta soldados no sertão;
  • E outros personagens secundários que vão construindo o tecido dessa história.

O pano de fundo histórico sobre o qual o romance se assenta vai praticamente de 1950 a 1967. É um período muito interessante da história brasileira porque representa um respiro relativamente estável e democrático entre duas ditaduras, a do Estado Novo e a dos militares. É um período de relativas liberdade e prosperidade para os brasileiros. A Constituição de 1946 tinha um caráter liberal e democrático, e os EUA enfim começavam a realmente liderar o mundo no pós-guerra, e isso influenciava o modo de vida por aqui. O Brasil continuava agrário e rural, além de subdesenvolvido, mas ao mesmo tempo se industrializava, via aumentar sua população urbana e construía uma nova capital. São desse período os principais sucessos culturais brasileiros:

  • O filme O Pagador de Promessas é de 1962, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e foi o primeiro filme sul-americano a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
  • O disco Chega de Saudade, de João Gilberto, é de 1959; Getz/Gilberto, outro disco, é de 1964; e Garota de Ipanema, de 1962, viria a ser a quinta canção mais executada no mundo.
  • E há a Copa do Mundo de 1958 na Suécia, que talvez seja de fato o momento em que o mundo descobriu o Brasil.

Quarup aparece num momento em que outros escritores, quase todos atuando na imprensa, publicaram romances sobre o Brasil dos anos da ditadura militar:

  • Carlos Heitor Cony escreveu Pessach: a travessia, que também é de 1967.
  • Érico Veríssimo escreveu Incidente em Antares em 1971.
  • José J. Veiga escreveu Sombra de reis barbudos em 1972.
  • Lygia Fagundes Telles publicou As meninas em 1973.
  • Inácio Loyola Brandão escreveu Zero, de 1975.
  • E em 1976, saiu A festa, de Ivan Ângelo.

Dessa pequena lista, apenas Pessach, e Quarpu, saíram um pouco antes do AI-5, que é de 1968. Todos os outros, foram escritos e publicados durante os 10 anos de vigência deste famigerado Ato Institucional.

Antônio Callado era jornalista e escreveu romances, biografias e peças de teatro. Nasceu em Niterói, em 1917, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1997. Entre tantos jornais brasileiros, trabalhou um longo período na BBC, em Londres, e na Rádio Difusão Francesa, em Paris. No começo dos anos 1960, de volta ao Brasil, ele teve um trabalho muito interessante e que certamente impactou a vida de muitos estudantes nos anos 1970, 1980 e 1990: ele foi contratado pela Enciclopédia Britânica para chefiar a equipe que produziria uma nova enciclopédia no Brasil, a Barsa. Quer dizer, se você tem aí seus 40, 50 ou 60 anos, o Callado teve uma grande importância na sua vida escolar. Na minha, ele teve, não houve um trabalho escolar em que eu não consultasse e citasse a Barsa.

Além destas atividades jornalísticas, ele se dedicou constantemente à literatura e escreveu obras engajadas com as grandes questões de seu tempo. Entre as mais importantes, estão Quarup (1967), Bar Don Juan (1971) e Reflexos do baile (1976), que apresentam um retrato do Brasil durante o regime militar, do ponto de vista dos seus opositores. Seu engajamento lhe custou duas prisões: uma em 1964, logo após o golpe, e outra em 1968, após o fechamento do Congresso com o AI-5.

De todos esses livros, Quarup teve maior destaque, como assinala o estudioso Alfredo Bosi, para quem estes romances dão a “… ênfase do compromisso individual perante a sociedade, caminho do romance político em sentido lato. Essa mesma conjunção de drama individual e saída militante, estilizada com maior brilho e vigor, sustenta um dos romances mais representativos do Brasil pós-64, Quarup (1967).”

Eu arriscaria dizer que é representativo também do Brasil pós-2018, em diferentes sentidos, mas ainda assim assustadores.

OS CAPÍTULOS DO LIVRO – CUIDADO: SPOILERS!

O romance está dividido em sete capítulos bem definidos:

  1. O primeiro, chamado O ossuário, nos apresenta o caminho que Nando quer seguir, suas dúvidas, sua preparação e seus temores, afinal ele teme que vá ceder às tentações do pecado e por isso falhar no seu intento, que é, usando as próprias palavras Nando: “ir em busca de índios ferozes e trazê-los ao contato da civilização por meio de Cristo”. Ele vem sofrendo com o medo de não resistir ao pecado, até que resolve pecar, porque para ele pecar funciona como um preventivo para não pecar: pecando a gente mitiga o pecado, ainda que não o derrote. Assim que experimenta o sexo, Nando se sente pronto para sua missão no Xingu.
  2. O segundo capítulo, chamado O éter, representa o período nebuloso em que Nando está pronto mas dependente da boa vontade de outros para partir. É o estágio do não-vai-nem-fica na capital da república, cheia de modismos e vícios urbanos, em tudo contrários ao que Nando deseja para sua prelazia dos bons selvagens. No entanto, um período necessário para que ele perceba que precisa avançar na sua luta contra a tentação do pecado. E é aqui, então, que Nando para a experimentar a rotina do sexo.
  3. Já no terceiro capítulo, A maçã, vemos a tentação católica colocada no paraíso terrestre, onde Nando, vivendo ainda como padre mas cada vez mais como homem se vê frente a frente com a nudez e a naturalidade com que os indígenas “pecam”. Nando está no Xingu. E os índios do Xingu preparam um quarup que vai homenagear também a criação do parque, que enfim vai acontecer.
  4. O quarto capítulo, A orquídea, é a consumação de um antigo amor de Nando, aquele que o fez temer pela sua castidade e pelos seus votos. Este amor acontece no meio da mata, junto a flores silvestres, animais e cursos d’água. Nos é apresentada mais uma vez a noção de pureza presente na natureza, como se fosse o jardim do éden.
  5. A palavra é o nome do capítulo em que temos Nando de volta ao Recife, trabalhando agora na alfabetização de adultos, os trabalhadores analfabetos dos engenhos de açúcar, revivendo o antigo sonho de seu amigo e trabalhando de perto ao seu antigo amor. Nando vai sofrer reveses amorosos, por conta da ação da família dela, e físicos, por conta da ação policial.
  6. Em seguida, temos A praia, capítulo que conta o período em que Nando abdica da luta e se deixa ficar na praia, morando na casa que era de seus pais. Aqui, ele não quer saber de luta e se enxerga apenas como um homem com tanto amor guardado no peito que ele precisa liberar esse amor e amar todas as mulheres que sintam falta de um amor. Quase um libertino, ele vai realizar uma cópia do quarup indígena e por conta disso vai ter uma encrenca grande com a polícia.
  7. E fechando o romance, o sétimo capítulo, chamado O mundo de Francisca, quando Nando se dá conta de que a situação do país degenerou completamente e ele precisa agir, não só em seu nome, mas também em nome do seu passado, do que viveu com seus amigos, com suas mulheres e com os indígenas do Xingu. Por fim, e como uma única opção, o ex-padre Nando entra para a luta armada.

 

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