Uma “trilogia” do Brasil contemporâneo

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Eu adoro história. É… história… esse conjunto de conhecimentos sobre os nossos antecedentes… história… aquela matéria que a gente estudava no colegial e contava coisas dos sumérios, babilônios, mesopotâmicos, gregos e romanos… história… essa sequencia de fatos e acontecimentos que acontecem no presente, moldam o futuro e depois ficam no passado.

Eu me lembro muito bem, e também com muito carinho, das aulas da Maria José Trindade, a dona Zezé, minha professora de história da sexta até a oitava série do primeiro grau. E lembro também de outra professora, que não me deu aulas no colégio, mas me ensinou muito em casa, minha mãe, que era professora de língua portuguesa e literatura, e sempre me mostrava um modo de aprender história nos romances, contos, crônicas e poesia que eu lia. E eu aprendia história.

Mas antes de eu falar de livros, eu quero lembrar de um ditado que eu ouvia muito quando era criança: quando a cabeça não pensa, o corpo padece. Eram os adultos que estavam à minha volta tentando me ensinar a refletir antes de agir, ou, de outra maneira, antes de entrar, veja por onde sair. Ou, de outra maneira ainda, eles estavam tentando me mostrar a importância e enorme benefício de estudar e aprender com o que já estava estabelecido, com o que já havia acontecido. Não dá para dizer “ah, eu não vivi tal coisa, então não sei do que se trata”. Isso é um atestado de ignorância, porque a “tal coisa” está presente nos livros de história, ou na sabedoria de outra pessoa com quem podemos conversar e aprender. Ou, ainda, num romance, num conto, num texto ficcional que sempre traz, de uma maneira ou de outra, alguma informação histórica.

Acho que todo mundo conhece Edney Silvestre, o autor. Ele é um jornalista que já apareceu muito na tela da TV, como correspondente internacional durante longo tempo. Ele foi, por exemplo, o primeiro jornalista brasileiro a cobrir o atentado ao World Trade Center em Nova York em 2001. Depois ele apresentou um programa de literatura na TV e já escreveu cinco romances.

Eu vou falar de três deles e de como a história do Brasil aparece em cada um deles e ao fim acaba por unir todos eles.

SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA saiu em 2009.

Em 2011, ele lançou o segundo romance, chamado A FELICIDADE É FÁCIL.

E o terceiro romance, VIDAS PROVISÓRIAS, saiu em 2013.

Não são propriamente uma trilogia, são três livros independentes e que se conectam pela presença de algumas mesmas personagens, mas em outros momentos de suas vidas. Porém… dá pra gente pensar neles como uma trilogia, sim, não da história, mas das personagens. Em cada livro, voltam personagens que haviam aparecido no anterior, e a cada livro a história do Brasil caminha e essas personagens se veem afetadas pelo que está acontecendo realmente no país.

“Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos.” Esta é a primeira frase do romance e desta frase sai seu título.

O enredo é mais ou menos conhecido, foi minissérie da televisão em 2019. Basicamente, é a história de dois amigos, Paulo e Eduardo, que matam aula para dar um mergulho no lago e lá acabam descobrindo um cadáver de uma moça. Quando a moça é identificada, o crime acaba não sendo investigado e eles dois decidem investigar por conta própria. E aí tudo acontece. Essa é história de dois meninos entrando no mundo dos homens antes da hora. E com todas as suas consequências. Nesse processo, os dois amigos ouvem uma frase que marca muito bem a ficção de Edney Silvestre e fala muito do Brasil que ele retrata: neste país, nada é o que parece.

O livro começa no dia 12 de abril e 1961, o mesmo dia em que o primeiro homem viajou pelo espaço e viu que a Terra era redonda e azul. A gente poderia tomar esse momento como um ponto de inflexão, ou seja, o homem ir ao espaço e olhar o seu planeta de faz com que nada mais seja o que parece. Tudo ganha outra dimensão, que às vezes liberta, mas às vezes sufoca. Na nossa história específica de SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA, as aparências enganam e de fato nada é o que parece ser. Essa descoberta custará a inocência dos dois amigos.

O segundo livro, A FELICIDADE É FÁCIL, tem a ação toda concentrada em dois dias de agosto de 1990. É o ano do Plano Collor. É um período da nossa história de muito cinismo, de falcatruas, de sequestros, de políticos espertalhões travestidos de salvadores da pátria – bom, nesse ponto, tanto faz 1990, 1930 ou 2018…

Aqui temos a história de um sequestro e através dela conhecemos as relações vis e interesseiras armadas entre publicitários, políticos, prostitutas e policiais, e como seu jogo sujo acaba por envolver e comprometer, a contragosto, empregados domésticos e seguranças. Neste livro, tem uma passagem em que uma das personagens, um publicitário, olha pela janela do seu escritório o comício da Praça da Sé pelas Diretas Já, em janeiro de 1984, e vislumbra o futuro onde ele enriquecerá com os milhões destinados às campanhas de tantos candidatos que em breve passariam a disputar as eleições. Infelizmente, nós sabemos muito bem como esse processo aconteceu e onde ele foi dar, como se tivéssemos chegado no fim da picada e perdêssemos nosso facão.

Já em VIDAS PROVISÓRIAS, o terceiro livro, nós temos duas histórias paralelas, a de um homem na Suécia, que transcorre entre 1974 e 2000, e a de uma moça que vive nos EUA, de 1991 a 2001. Estas duas histórias seguem realmente paralelas, sem pontos de contato, exceto pela razão de estas duas terem deixado o Brasil por motivos alheios às suas vontades: ele foi exilado pela ditadura militar; ela fugia da crise econômica do Plano Collor e de uma situação familiar da qual ela não tinha nenhuma responsabilidade. Ela nasce em São Paulo quando ele está chegando em Estocolmo. E suas histórias terão um único ponto de contato – que eu não vou contar qual é.

Da mesma forma que no segundo livro, neste terceiro livro são retomadas personagens dos anteriores, tanto do primeiro quanto do segundo.

O que me fez lembrar destes livros publicados já há alguns anos foi ter ouvido um podcast chamado Faxina. É um programa de uma educadora que dá voz aquela pessoa invisível que trabalha deixando limpa a casa de outra pessoa. Neste caso específico, ela dá voz a brasileiros que deixaram seu país por falta de oportunidade, perda de esperança ou total descrença no futuro por aqui. A apresentadora ela própria teve seu primeiro trabalho quando imigrou para os EUA como faxineira. Faxineira nos EUA é o trabalho da protagonista de VIDAS PROVISÓRIAS…

Eu acho que a manutenção das personagens de um romance para outro, fazendo com que elas reapareçam quando a história já está em outro momento, pode ser entendida como característica do nosso país, onde é frequente as coisas mudarem para que elas permaneçam como são, ou como eram. Ou, ainda, as coisas permanecem como elas serão. Por isso é valida aquela advertência da personagem do primeiro romance: neste país, nada é o que parece. E só uma baita faxina pode afastar os móveis, levantar o tapete e mostrar o que se esconde embaixo dele.

 

 

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