Um livro sobre a humanidade dos livros

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Um dia eu estava na internet, provavelmente adiando alguma coisa importante que deveria ser feita, e me deparei com o anúncio de pré-venda deste livro, CONTRA A AMAZON. O anúncio dizia que comprando o livro em pré-venda, o comprador poderia indicar uma livraria para receber um percentual da venda do livro. Gostei da ideia, gostei do título, entre as livrarias tinha uma que eu admiro – que é a Livraria Simples, aqui de São Paulo. Então eu fiz a minha compra e fiquei esperando o livro ser lançado e chegar. E um dia chegou. É um livro de artigos escritos por um cara que gosta de livrarias e tem um trabalho de pesquisa sobre livrarias em alguns países. Esse cara é o Jorge Carrión, escritor e crítico literário espanhol.

O artigo principal é esse que se chama ‘Contra Amazon’ e é uma crítica ao capitalismo e ao grande produto do mercado global do século XXI: você, seus dados, suas ações e suas emoções deixadas no rastro dos seus cliques.

O autor lista sete razoes para ser contra a Amazon, e eu vou falar de duas delas.

A primeira: “A Amazon não é uma livraria, é um hipermercado.”

A empresa começou vendendo livros, mas com a perspectiva de vender qualquer coisa e todas as coisas. Ao vender livros, ela se apropriou do capital cultural do livro, do verniz que o livro tem e poderia emprestar ao negócio. O livro, afinal, sempre foi visto como um repositório de saber e de cultura, é o símbolo por excelência da sofisticação intelectual. Mas não só isso. O livro é um produto que você pode comprar sem experimentar e não errar. E já em meados dos anos 1990, era um produto que estava já adaptado à era digital, com um código internacionalizado. Além disso, o livro não estraga, ele pode ficar estocado, pode ser transportador grandes distancias, não quebra. Por isso, na opinião do autor, a Amazon se tornou o maior hipermercado do mundo atrás de uma grande cortina de fumaça em forma de biblioteca.

A segunda razão: “Não quero que me espiem enquanto leio.” Outro aspecto que o autor usa como base para ser contra a Amazon é a bisbilhotice da internet: “No último Dia do Livro, a Amazon revelou quais foram as frases mais sublinhadas nos últimos cinco anos da plataforma Kindle. Se você lê em seu dispositivo, eles sabem tudo sobre suas leituras. Em quais páginas você as abandona. De quais chega até o fim. Em que ritmo você lê. O que sublinha.” Bom, isso acontece também com a Netflix, ou com o Prime Vídeo, e certamente acontece com diversos outros aplicativos que eu desconheço. Nada é invisível na rede. E tudo é permanente. Basta alguém querer procurar.

Amazon, Google, Facebook, são materializações da intermediação disfarçada, coletando de você e vendendo para quem quer vender para você. Essas empresas coletam seus dados concretos de pesquisas, interesses e compras efetivadas e também os seus dados emocionais, subjetivos, ligados aos seus afetos. Usando uma boa metáfora do autor, estas empresas são os três tenores da globalização, e a sua música é a música do mundo.

O que esse artigo me faz pensar é que precisamos dar um jeito de dançar essa música de um modo mais confortável e num ritmo menos alucinante. Se você me vê nesse vídeo, está agora mesmo usando uma plataforma que é do Google ou do Facebook, eu acho. Isso é ruim? Não. Isso pode ser ruim? Talvez. Depende de como você usa.

Eu acho que o autor estabelece dois pontos de vista: o primeira é fazer uma crítica ao modo de vida consumista e gerencialista, em que todo mundo tem que fazer mais com menos e mais rápido. Eu concordo em parte com ele. Acho sim que a gente vive acelerado demais em busca de coisas cuja obsolescência programada vai nos frustrar. Porém, assim como ele próprio admite, eu também compro na Amazon. Há muitos momentos em que a praticidade é o principal atributo da nossa decisão de compra.

Já o segundo ponto de vista, é que, pelo menos em algum lugar, é preciso haver uma resistência a este estado de coisas.

Veja bem, não se trata de querer banir a internet, pelo contrário. A internet é maior invenção da humanidade desde a prensa móvel! Gutemberg inventou a prensa móvel em 1450 e a internet fica disponível para a sociedade em 1990 – são 540 anos entre um evento e outro, e nós estamos navegando livremente há apenas 30 anos, eu acho que estamos ainda na infância desse período. Ao mesmo tempo em que nos livramos da fila no banco, nos perdemos nas infindáveis horas de tela. É como criança comendo doce, se lambuza mesmo…

E, pra concluir, eu quero firmar uma posição: o mercado do livro no Brasil é pequeno e seu problema não é a Amazon. É a falta de leitores.

Somos um país de pouco estudo e de baixo interesse no conhecimento. E mesmo entre os brasileiros que podem estudar e completar 15 ou 16 anos de educação formal existem muitos, mas muitos mesmo, que passam bem longe de um livro depois que finalizam os estudos.

Nós, brasileiros, não lemos. Na média, um brasileiro lê 2 livros por ano e cerca de um terço dos brasileiros nunca compraram um livro na vida. Esse é o grande problema do mercado do livro no Brasil.

E como são poucos leitores, o livro é praticamente um produto de nicho, voltado para pouca gente. E pouca gente acaba descobrindo que o grande barato do livro é que ele proporciona o contrário do que a internet mais exige de nós: a conexão.

“A grande vantagem do livro de papel não é a portabilidade, a duração, a autonomia, nem a relação íntima com nossos processos de memória e aprendizagem. É a desconexão permanente.” Eu diria um pouco mais: entrar numa livraria, permitir que lá no meio de prateleira um livro capture a nossa atenção e retenha o nosso interesse a ponto de a gente levar ele para casa, sentar com ele e passar uma hora lendo no papel, é a desconexão necessária para recarregar a bateria.

Tomando mais uma frase do Jorge Carrión, “as boas livrarias são perguntas sem resposta”. Elas são o oposto do algoritmo que sempre te dá uma resposta. Ao invés disso, elas te convidam a pensar. A ser… humano.

* * * * *

Contra Amazon e outros ensaios sobre a humanidade dos livros

Jorge Carrión

Tradução de Reginaldo Pujol Filho e Tadeu Breda

Editora Elefante, 2020

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