Carta aberta ao Deputado Estadual Carlão Pignatari (PSDB)

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Excelentíssimo senhor deputado estadual Carlão Pignatari, venho por meio destas mal traçadas escrever-lhe a propósito do Projeto de Lei no. 529/2020, que o ilustre Governador do Estado de São Paulo, senhor João Dória, enviou à nobre Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para deliberação e sobre o qual o senhor, na condição de líder do governo, tem dado entrevistas e cuidado da aprovação. Permita-me que encerre este primeiro parágrafo dispensando essa liturgia gramatical que reveste as comunicações oficiais e dificulta a compreensão do que é dito. Permita-me uma comunicação direta e simplificada.

Meu caro Carlão, de modo muito resumido, gostaria de te dizer que este PL 529/2020 é uma mistura de alhos e borralhos como se tudo fosse rebotalho. É um projeto apressado, que prevê reformas tributárias, administrativas e fiscais, além de privatização, sem de fato fazer nenhuma delas realmente bem-feita. São temas muito extensos para serem tratados com urgência, como pede o governo, e que soa tão apressado que, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no dia 18/8, você reconhece que “podemos corrigir o texto das universidades, que ficou errado”. Este erro apareceu porque a turma da ciência, que vem apanhando duramente nos últimos dois anos, gritou logo. Mas creio que os problemas decorrentes da aprovação de um projeto tão amplo e com tão pouca discussão não ficarão restritos às universidades, porque o projeto prevê a extinção de autarquias que conduzem pesquisas aplicadas importantes para a vida da população paulista e brasileira.

Meu caro Carlão, somos cidadãos moradores de um estado que se orgulha da sua pujança econômica e da sua produção de conhecimento. O que seria de uma sem a outra? Nada. Você sabe a importância da educação. Eu lhe fiz um elogio nas páginas do Diário de Votuporanga no dia 14/8/2002 quando você, então prefeito da nossa cidade, resolveu uma pendenga antiga acerca da propriedade das terras onde estava o Colégio Técnico Agrícola de Votuporanga, que naquela época já não tinha mais este nome, e que diversos prefeitos se negaram a enfrentar. Naquele dia, eu escrevi: “o primeiro que desapropriou um pedaço do CTA era um professor. Agora, quem toma a solução é um empresário”. O empresário era você, Carlão. Um ano antes, em setembro de 2001, eu fui à prefeitura receber o certificado de finalista do Mapa Cultural Paulista. Era a primeira vez que eu recebia uma homenagem pelo meu trabalho de escritor. Você era o prefeito. Este dia foi tão importante para mim que eu convidei para assistir à cerimonia a pessoa mais influente na minha formação ética e cidadã, meu avô Hernani de Mattos Nabuco. Ao saber que um ex-prefeito estava presente, você o recebeu em seu gabinete antes da cerimonia, num gesto claro de deferência e respeito. Como ele já estava em idade avançada e caminhando com certa dificuldade, acabei indo ao seu gabinete junto com ele. Desta breve conversa entre dois prefeitos, só gravei uma coisa: o seu elogio à sua primeira professora. Gravei porque para mim a primeira professora também é especial, dona Cleide Gusmão Peresi.

Este meu avô, você sabe, era um homem da política e, mais ainda, da gestão pública. Uma das coisas que ele mais acreditava serem importantes para uma cidade pequena, que aos poucos evoluía e se desenvolvia, era o que ele chamava de ‘marcos de liderança’, aqueles aspectos que distinguiriam a cidade na sua região e, a partir dela, no seu estado. Um deles, que ele construiu no seu segundo mandato foi justamente o Colégio Técnico Agrícola, que em seu sonho era o embrião de uma Escola Superior de Agronomia – ele nunca falou em faculdade, sempre em escola superior, indicando o elevado peso que o estudo e a ciência tinham para ele, que nunca pisara numa faculdade.

E o que é a uma organização como a FAPESP, para ficar em apenas uma da extensa lista de entidades e autarquias que sofreriam os cortes ou a extinção previstos no PL 529/2020? Não é o marco de liderança deste estado que é o maior investidor em pesquisa do Brasil? Eu não gosto da imagem de locomotiva do Brasil que há cerca de 90 anos foi usada como argumento de propaganda para a guerra civil que travamos contra o governo federal, guerra na qual esse mesmo avô cerrou fileiras. Ainda assim, seríamos algum tipo de locomotiva se não tivéssemos a educação e a pesquisa científica que temos? Não seríamos. No momento em que o Ministério da Educação prevê voltar a ter, em 2021, um orçamento menor do que o Ministério da Defesa nós, paulistas, vamos nos igualar a eles?

Não, meu caro Carlão, esta é a hora de honrarmos nosso passado de criação de escolas, de parques de conservação, de entidades de apoio à saúde; esta é a hora de usarmos o conhecimento que aqui geramos para sermos criativos na geração de receita sem corte na carne, sem fazer sangrar a nossa força; esta é a hora de darmos passos à frente. Se a sua professora teve a importância que você confessou ao meu avô, por favor, lembre-se que é neste caldo que o governo, e seu líder, estão metendo a colher.

Um abraço,

Adauto.

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