A noite escura e mais eu – livro de contos de Lygia Fagundes Telles

um comentário

“Ninguém abra a sua porta

para ver o que aconteceu:

saímos de braço dado

a noite escura e mais eu.

E ela não sabe o meu rumo,

eu não lhe pergunto o seu:

não posso perder mais nada,

se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,

levando tudo o que é meu:

– a dor que os homens me deram,

e a canção que Deus me deu.”

Este é o poema “Assovio”, de Cecília Meirelles, e dele saiu a epígrafe e o título deste livro maravilhoso de Lygia Fagundes Telles.

A primeira edição do livro é de 1995 e saiu pela antiga editora Nova Fronteira, que é essa que eu tenho aqui comigo. Em 2009 a Companhia das Letras lançou uma nova edição, dentro de um projeto de obra completa da Lygia. Eu já tive também um exemplar dessa edição atual, mas eu emprestei e ele ficou com quem me o livro levou emprestado. Acontece… O fato é que eu gosto muito dessa edição já meio antiga, ela já está um pouco amarelada nos cantos, mas eu gosto dessa capa, que acho que exprime muito bem a ambiguidade de sentimentos que aparece nas personagens dos contos deste livro. É uma capa feita pelo Victor Burton, sobre um detalhe do quadro Eva, de Ismael Nery. E eu gosto muito também do aspecto tátil desse livro, da quantidade de páginas, do tamanho da mancha, da fonte utilizada, ele é um livro muito confortável de ler e agradável de segurar entre as mãos.

Se eu tivesse que escolher meus cinco escritores favoritos, a Lygia estaria entre eles. Sem sombra de dúvida! Aliás, eu vou fazer esta lista, em breve ela aparecerá no meu blog. Bom, Lygia Fagundes Telles é um nome gigantesco da literatura brasileira. E sobre ela a gente pode lembrar a análise do Alfredo Bosi, que a destaca como parte de um grupo de escritores que surgiram nas décadas de 1940 e 1950 e “atestam, em conjunto, a maturidade literária a que chegou nossa prosa de tendências introspectivas”. Lygia está nesse grupo de escritores de romances com tensão interiorizada, que trabalham com os ritmos da observação e da memória para contar o clima familiar de personagens muitas vezes sem norte. É isso que ele fala dela.

Deste volume de contos, eu gosto particularmente do conto “Você não acha que esfriou?”, em que a ação se passa na cama, onde uma mulher e um homem conversam logo após o sexo.

Tem outro conto magnífico, que é “Uma branca sombra pálida”. O título do conto é a tradução do título de uma música conhecida, uma balada pop inglesa, lá dos anos 60, que as personagens ouvem em momentos específicos e uma delas traduz poesia, então tem aí um jogo, e uma disputa, em torno de como o nome da música ficaria em português. Aqui tem uma coisa engraçada, quando eu releio este conto, eu penso que é a gravação da Annie Lennox, a cantora do Eurythmics, que as personagens estão ouvindo, parece que essa versão casa melhor com a atmosfera do conto do que a versão original da música, mas na ideia da autora não deve ser nada disso, porque a versão da música e o livro saíram no mesmo ano, não dava tempo de ter ouvido, escrito e publicado. Bom, esse conto é magistral! Ele tem basicamente uma única cena, em que uma mulher coloca flores num túmulo, e enquanto ela faz isso, ela vai lembrar de porque ela está ali, como as coisas chegaram até ali. E num diálogo com uma borboleta ela vai nos revelar exatamente o que a traz ali. E essa mulher transmite uma tal mistura de sentimentos que a cada vez que eu releio este conto eu acho que é uma coisa, ou outra, e todos fazem perfeito sentido nesta cena.

Tem outro conto estupendo neste livro, que é “Anão de jardim”, em que um enfeite da casa conta a história de um casal durante uma mudança.

E um cachorro que sonha? Esse é o tema do conto “Crachá nos dentes”. E se parece que ele reproduz aquele famoso sonho de outra cachorra – o da Baleia, que morrendo de fome sonha com os preás gordos do paraíso – aqui o cão sonha que é homem. E como ele sofre… como homem e como cão!

Agora, por mais inusitados que possam parecer o cachorro sonhando que é homem ou o anão de jardim contando uma história, o que temos nestes textos é a eterna busca do ser humano para suas respostas existenciais, é a busca do eu, são os encontros de personagens ilhadas por seus conflitos e ainda assim alimentadas de sonho e de esperança.

Uma certa vez, muitos anos atrás, eu pedi um autógrafo para a Lygia, num lançamento de um livro. Esperei mais de uma hora na fila. Quando cheguei à mesa onde ela autografava, eu fiquei impressionado com a elegância e a simplicidade dela. A elegância aparece facilmente nas fotos. E essa elegância aparece muito nítida no seu texto. Este livro é elegante do começo ao fim.

* * * * *

A noite escura e mais eu

Lygia Fagundes Telles

Companhia das Letras, 128 páginas

1 comentário em “A noite escura e mais eu – livro de contos de Lygia Fagundes Telles”

  1. Que espetaculo de texto! Obrigada por compartilhar sua analise, impressoes. Voce nos brinda sempre com tamanha inteligencia, conhecimento, perspicacia, sensibilidade. E eu sou sua sortuda irma, amiga, socia e admiradora profunda, que inclusive ganhou de presente de voce um livro da Lygia, por ela autografado. Um dos meus presentes favoritos. Meu eterno agradecimento. Beijos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s