A patroa falou

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Eu não sabia que a Anitta tinha reclamado da definição de patroa no dicionário.

Dicionário é aquele livro que meu avô chamava de ‘pai dos burros’: se você não sabe o que significa uma palavra, vá ao dicionário.

O que eu uso, o Houaiss, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, edição impressa de 2001, define patroa como sendo a mulher do patrão, a dona de casa, a mulher que dirige certos estabelecimentos ou serviços. E ainda, de modo informal, como sinônimo de esposa usado como interlocutório pessoal, por exemplo, “minha patroa gostou do serviço”. E como o Houaiss é um baita dicionário, fico sabendo não só o que patroa significa, mas também que a palavra veio do latim patrona, que é a defensora, protetora, antiga senhora de um liberto. É o feminino de patronus, o protetor de plebeus. Através das formas padroa e patrona, o termo patroa entrou para o português em 1789.

Mil, setecentos e oitenta e nove me lembra alguma coisa que estudei na escola, lá pela sétima série, um pouco antes talvez… faço uma forcinha, puxo aqui pela memória, tem algo a ver com a Inconfidência Mineira. Vou ter que checar. Preciso parar de escrever, levantar a bunda da cadeira e ir até a estante, apanhar o Boris Fausto, tem algo na história do Brasil nesta data e agora preciso descobrir o que é.

(levanta, anda até a estante, apanha o livro, procura, encontra, lê, volta pra a mesa, senta, retoma a escrita)

Sim, tem a ver com a Inconfidência Mineira: neste ano houve a suspensão da derrama, a delação de Silvério dos Reis e a prisão de Tiradentes. Três anos depois, ele seria enforcado e a partir daí esquecido pelo Império até que a República o reabilitasse.

Mas, admito, depois de verificar no livro de história do Brasil, não resisti à busca na internet, obviamente usando o mecanismo de busca mais comum, o você-sabe-qual. Claro! E dou um tapa na testa! Tomada da Bastilha, Revolução Francesa! Pronto, resolvido o enigma 1789.

E aí era a hora, então, de buscar no você-sabe-onde qual era a treta da Anitta. E descobri que não era da Anitta, pelo menos não só da Anitta. A treta começou com o Catraca Livre, em um texto que defende que o feminino de patrão, a saber o dono, não pode ter um significado diferente só porque o termo mudou de gênero, porque afinal ser dona, ou patroa, é bem diferente de ser a mulher do patrão. E descobri que não era do dicionário que a Anitta nem o Catraca Livre reclamavam, era do você-sabe-quem.

Entretanto, o você-sabe-quem não define o sentido das palavras, assim como aquela outra ferramenta da internet não é responsável pelo conteúdo do que você posta, do mesmo modo que aquela empresa só faz a ponte entre quem quer comer em casa e quem quer mandar comida para a sua casa através do serviço espontâneo de um entregador motorizado. É o mundo da intermediação. Se queres dominar o mundo, intermedeie ao invés de produzir – peraí, agora preciso da gramática normativa, vamos ao Cegalla. O que? Não conhece o Cegalla, Domingos Paschoal Cegalla, autor da Novíssima Gramática da Língua Portuguesa? Tem uma aqui em casa, 45a. edição, impressa em 2002.

(levanta, vai até a estante, apanha a gramática, procura, encontra, lê, volta pra a mesa, senta, retoma a escrita)

Pronto: está correta a conjugação, é intermedeie mesmo, mas como o corretor automático sublinhou o termo, melhor conferir. Conferido está, sigamos. Pois então, vinha eu dizendo que o você-sabe-quem afirma não produzir conteúdo nem dar sentido às coisas. Alem de intermediar, esta é outra habilidade importante se queres vencer na vida: tira o teu da reta!

Os dicionários trazem os sentidos que os falantes dão para a língua e justamente por isso eles precisam de revisões, porque os falantes mudam os sentidos das palavras, dando a elas novos usos e com o passar do tempo também novos significados. O que vemos hoje no Houaiss, ou no Aurélio, mas o que vemos nos dicionários são as acepções mais comuns da língua, é a língua do jeito que a gente fala. Por isso, no nosso Brasil machista e preconceituoso, a acepção de patroa como sendo a mulher do patrão vem antes da acepção de dona de um estabelecimento.

O texto do Catraca Livre e a reclamação da Anitta, por fim, acabaram fazendo o você-sabe-quem mudar a primeira acepção do termo patroa. Se hoje você fizer a busca pelo termo patroa, proprietária ou chefe de um estabelecimento vem primeiro, e esposa vem lá na oitava posição. Não é o suficiente para mudar a cabeça do brasileiro. Pelo menos, não imediatamente. Mas o que acontecerá se o você-sabe-quem fizer estas mudanças sempre que algum lacrador famoso demandar? Não estará mudando também o modo como usamos a língua? Pode ser que sim. Porém, o que me fez pensar mesmo foi o quanto a Anitta e o você-sabe-quem ajudam a mudar a mentalidade do brasileiro que chama de patroa a gostosona do camarote.

Para os textos do Catraca Livre:

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