Ponto de chegada dos contos de Fonseca: O buraco na parede.

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Já consagrado, Rubem Fonseca escreveu este livro de contos que representa o ponto de chegada da sua arte: aqui estão seus temas prediletos embalando as personagens que só ele sabia construir. O buraco na parede foi lançado em 1995, pela Companhia das Letras, e relançado em 2014, pela Nova Fronteira.

De Rubem Fonseca costuma-se dizer que ele escreveu mais ou menos sempre os mesmos contos, entregando a seus leitores o que ele sabia que eles esperavam. Eu acho um pouco exagerada essa afirmação, acho que ela desmerece os temas caros ao escritor, que de uma forma ou de outra, sempre os repete em sua obra. No caso específico de Rubem Fonseca, os seus primeiros livros de contos, nos anos 60 e 70, tem muito experimentalismo, o que era típico da época. Depois, ele passa todo os anos 1980 publicando romances – foram quatro romances – e retorna ao conto nos anos 1990. 

Este livro, O Buraco na Parede, é um livro de contos, publicado em 1995. 

O conto que dá nome ao livro conta a história de um rapaz que mora numa pensão e um dia descobre, sem querer, que atrás de um quadro tem um buraco feito na parede. E do outro lado da parede há um banheiro… e é aí que a história se desenrola. 

Já o conto que abre o volume, chamado O Balão Fantasma, trata da procura por um balão que todo mundo ouviu dizer que está sendo construído e que vai ser o maior balão já feito e solto pelos céus da cidade. E na busca por esse balão, se desenrola uma história de amor entre um delegado e uma ambientalista. Aqui, outro caso típico de Fonseca, o policial cordial, que entende de psicologia e através dela relativiza as ações dos homens. 

Placebo é o nome do conto em que a personagem principal precisa encontrar ingredientes muitos específicos, e relativamente estranhos, para preparar um remédio. Aqui aparece a pessoa doente que trata do corpo quando deveria tratar do espírito – mais um tema comum em Rubem Fonseca.

Em outro dos contos, Fonseca retoma uma forma que ele usava em outros textos, que é o diálogo puro, como se fosse teatro. Neste conto, em que ações beiram o absurdo, uma das personagens solta uma frase que é Rubem Fonseca condensado e comprimido: viajar é conhecer idiotas que falam outra língua. Essa é uma frase típica de Rubem Fonseca, quando uma personagem emite uma opinião taxativa, assertiva, com uma boa dose de sarcasmo e fatalismo e ainda beirando o preconceito. Aliás, como diz a orelha dessa edição que eu tenho aqui comigo, esta é uma daquelas situações em que o escritor mostra tanto poder de síntese em que ele revela toda a complexidade das suas personagens com um gesto, uma fala, uma frase. 

Este livro tem até um conto muito curto, chamado Orgulho, de duas páginas, apenas um parágrafo, feito numa escrita veloz, que trata de uma imagem totalmente batida: a de que, na hora da morte, sua vida lhe passa feito um filme na frente dos olhos. E sobre este tema, ele escreveu um texto vigoroso que não tem nada do lugar comum. 

E, para não dizer que ele não falou das flores, o conto Artes e Ofícios mostra como a literatura enverniza e faz brilhar a vida tosca de um empresário muito rico. Depois de ter comprado todo o prestígio e renome disponível no âmbito do consumo e da estética corporal, esse empresário quer agora contratar um escritor, um ghost writer, para ter um livro publicado, um livro à la Machado de Assis. 

Bom, essa reunião de contos em O Buraco na Parede traz, de fato, as conhecidas questões centrais da obra de Fonseca. Agora, o que me parece que este livro oferece é um ponto de chegada da forma de tratar estas questões. O baixo mundo do centro do Rio de Janeiro, sua arraia miúda que de um modo ou de outro se entrelaça com os tubarões, que por sua vez nadam na mesmas vilanias, os tipos urbanos, suburbanos e sub-urbanos, a narrativa em primeira pessoa, os tipos conquistadores, os amantes das letras e dos livros, a violência urbana que choca e aterroriza e também aquela pequena dose de lirismo sem a qual a vida não vale a pena.

* * * * *

O buraco na parede

Editora Nova Fronteira

208 páginas, 2014 (2ª. edição)

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