No meio do caminho tinha um livro contando sobre uma pedra no meio do caminho

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Carlos Drummond de Andrade nasceu num 31 de outubro antes, muito antes, deste dia se tornar Halloween aqui no Brasil. Para comemorar, já há dez anos o Instituto Moreira Salles criou o Dia Drummond. E vem do próprio Instituto Moreira Salles a reedição, revista e ampliada, deste delicioso livro Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema.

Este livro foi feito pelo próprio Drummond em 1967, para celebrar os 40 anos da publicação do poema No meio do caminho, que nasceu para o público na Revista de Antropofagia, em 1928. É uma coleção do muito que se falou e se escreveu sobre o poema. Precisamos lembrar que Drummond trabalhava primeiro no Ministério da Educação e depois no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o que lhe dava boa intimidade com processos e registros. Assim, ele foi guardando o que saía na imprensa sobre o seu poema e um dia reuniu num livro. Como diz o poeta Eucanaã Ferraz na apresentação desta edição: “Só o apreço de Drummond pela memória e pelo arquivo poderia urdir um livro tão singular, baseado na reunião, na catalogação e na montagem”. 

Chegaram até a dizer, para ele, “engraçado, eu pensava que o senhor fosse débil mental, mas agora, vendo que providencia o andamento dos processos e faz as coisas normalmente, vejo que me enganei. Desculpe, foi por causa da pedra no caminho…”

Então, o que o poeta e “arquivista” Drummond fez foi montar seções para falar do seu poema. Por exemplo, o capítulo “A pedra vai pelo mundo” traz traduções do poema para o húngaro, o espanhol, o francês, o italiano, o alemão, o inglês, o vietnamita e o hebraico. 

Em outro capítulo, Drummond nos mostra o quanto foi escrito em tom de deboche sobre o seu poema. Por exemplo, uma crítica de 1938, dez anos depois da publicação do poema, terminava assim: “E não houve uma alma caridosa que pegasse essa pedra e lhe esborrachasse o crânio com ela?”. Ou, ainda, paródias: “Eu tropecei numa casca de banana. Numa casaca de banana! Numa casca de banana eu tropecei agora.” 

Há uma passagem que eu gosto muito, de 1944, e diz assim: “Quem se lembra das pilhérias em forma de estrofes, do Carlos Drummond de Andrade? Mesmo com o seu prestígio de chefe de gabinete no Ministério da Educação, este não consegue incluir nos programas literários aquelas histórias de pedras no caminho e outras de igual polpa. Por quê? Apenas porque a poesia dita ‘modernista’ é um artifício idiota, que o senso comum despreza.” Ledo engano. Ou, como diria os imortais da Academia Brasileira de Letras: ledo, e Ivo, engano. Drummond talvez seja o poeta brasileiro que mais esteja presente no senso comum, praticamente todo mundo que estudou um pouco se lembra de algum verso seu. 

Há também, claro, um capítulo que ele chamou de “Os amigos da pedra” e traz, entre outras, esta passagem de carta escrita por Antônio de Alcântara Machado em 1928, assim que o poema saiu: “Mas estupenda mesmo é a pedra que está no caminho. Vamos sentar nela?”. 

Bom, e aí Drummond vai montando seu livro, juntando as incompreensões sobre o seu poema, a popularidade positiva e negativa, os inimigos da pedra, as etiquetas coladas ao autor (o poeta da pedra, o poeta pétreo, o pedregoso, os poemas graníticos…). 

E para fechar o livro, vem uma seção nova, que não estava na primeira edição, e traz novas análises e intepretações do poema. E, ao final, um poema de Ana Cristina César, inspirado na pedra de Drummond: 

pedra lume

pedra lume

pedra

esta pedra no meio do

caminho

ela já não disse tudo,

então?

Sim. Ela disse tudo. É isso. Leia Drummond, leia poesia. 


* * * * *

Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema

Seleção e montagem Carlos Drummond de Andrade

Edição ampliada Eucanaã Ferraz

Instituto Moreira Salles, 2010

344 páginas

Esgotado 

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