Abertura de “Primeiro do Ano”

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Primeiro do ano é um dia estranho. Ou eu acordo de ressaca ou eu acordo bravo por não ter enchido a cara em alguma festona de réveillon. Hoje acordei bravo. E cedo. Resolvi dar logo um jeito na vida: fui até a esquina comprar pão fresco e jornal do dia, passei um café forte mesmo não estando de ressaca e comi e li o jornal e fiquei de saco cheio por ter acordado tão cedo. Procurando alguma coisa para fazer o tempo passar, me enfiei a organizar as coisas que andavam um pouco bagunçadas no meu quarto-escritório – já que não tomei um porre ontem, que essa merda de ano comece de cara limpa. Comecei alterando a ordem dos discos, tirei da sequência alfabética e coloquei em ordem de estilos musicais. Não guardo livros em casa, então apelei para as gavetas de minha mesa e depois avancei pelas pastas da estante. Algumas acumulavam muita poeira em cima; poeira pegajosa, preta, feia. Na última delas, na que estava debaixo de uma pilha de pastas plásticas, reencontrei os originais de um livro de contos que eu havia inscrito num concurso promovido pela faculdade, há dez anos. Dez anos! Quando a gente tem trinta, é duro se dar conta de coisas que aconteceram há uma década, duas décadas. É o começo do fim, mesmo.

Meus contos! Me senti orgulhoso quando fiz a inscrição naquele concurso, mesmo assim não cheguei a mostrar nada para ninguém. Naquela época, resolvi escrever porque não tinha dinheiro pra pagar um analista, e eu precisava exorcizar um amor. Que coisa mais besta! O sujeito deveria ter um ideal mais nobre para se por a escrever do que sofrer por amor. Se eu fosse escrever um livro hoje, eu escreveria uma história policial, com muita porrada e muito suspense e muito sexo, ou inventaria alguma coisa envolvendo suborno no governo, corrupção, lavagem de dinheiro, essas pedreiras. Nunca sobre amor. E escreveria no computador, a primeira coisa que um escritor tem que comprar hoje é um computador – escrever à mão é pra quem está doidão, mesmo, querendo tirar uma de poeta romântico! Só que eu não escreveria livro nenhum, esse país tem artistas demais de gente que rala de menos.

Mas me lembro muito bem desse amor que não deu certo. Antes dos vinte acontece um monte de amores que dão errado, comigo aconteceu um só, que me pegou de jeito, feito bolada na boca do estômago que deixa a gente sem fôlego. É verdade que sofri muito quando acabou, é verdade que chorei muito, também. Aquela história começou intensa, mal nos conhecemos e saímos em viagem. Quando se está apaixonado, vai-se pro campo ou pra montanha pra encher a cuca de vinho e ficar olhando uma fogueira e depois se enrolar debaixo dos cobertores. Eu fui também, fiz o convite e ela aceitou. Era meu aniversário.

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