O que dizer nesta hora?

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“Hoje mamãe morreu”.

Esta é a abertura de um livro excelente (O Estrangeiro, de Albert Camus, de 1942). Quase usei esta frase para mandar uma mensagem para um amigo meu, ao responder uma mensagem dele cancelando um compromisso que teríamos para aquela tarde. A mensagem dele chegou pouco depois que minha irmã havia me avisado do falecimento de nossa mãe. Eu já havia chorado um pouco – e choraria muitos outros poucos nos dois dias seguintes, a cada vez que encontrava alguém que vinha me dizer qualquer coisa boa sobre minha mãe. Esse meu amigo é fluente em francês e eu só não usei a frase de Camus porque no exato momento em que ela veio à minha mente em francês eu não soube escrevê-la em francês. Eu não sei escrever em francês. Nem ler, nem entender. Eu não sei francês. A minha mãe sabia, um pouco. Velório.

Minha mãe também tocava violão e pouco antes de ela morrer eu soube pelo meu pai que o sonho dela era tocar piano. Talvez por isso eu tenha sido empurrado para o piano (“um instrumento completo, uma orquestra inteira”) quando eu queria mesmo era tocar violão. O violão vai junto com você, você o coloca no colo, abraça, escorrega os dedos por suas cordas. Enquanto o violão é acariciado, o piano é martelado. Nunca gostei de marteladas. Ela também não gostava de marteladas. Uma das músicas que eu mais gostava de ouvi-la tocando e cantando era “Coração de Luto”, um clássico da música caipira que, pelos olhos de um menino de nove anos, conta a morte da mãe. Com menos de nove anos, eu chorava quando ela tocava, e pedia para ela tocar de novo. Freud deve explicar essa dose de masoquismo. Carinho.

Minha mãe morreu há cinco dias, numa sexta-feira bem antes da hora do almoço, no momento em que eu estava preparando a lancheira que minhas filhas levariam à escola e ela estava sozinha no seu quarto, em sua casa, em sua cidade muito distante da minha. As meninas perderam a aula e aprenderam o que é um velório. Por lá passaram seus colegas de profissão, professores do ensino médio e diretores de escolas; amigos meus e de minhas irmãs; vizinhos; antigos empregados de meu pai; conhecidos da cidade; e seus ex-alunos. Cada um destes ex-alunos que chegava para fazer suas condolências e prestar suas homenagens ajudou a colocar um tijolinho no átrio que meu peito vinha construindo há anos. Cada ex-aluno dela veio trazendo, talvez sem saber, o mérito que ela mereceu em cada um dos seus dias de trabalho numa sala de aula e que fundamenta a admiração que eu, filho, carregarei até o fim dos meus dias. Amor.

Minha mãe começou a morrer há muitos anos, e veio morrendo devagar conforme a demência ganhava terreno. Não fossem os cuidados especialíssimos de suas cuidadoras, de minhas irmãs e do meu pai, a atenção de seus irmãos, incluindo aqui uma prima homônima quase irmã, e a fé de todos eles nos últimos resquícios de consciência que nela eles enxergavam, eu estaria sendo pedante, ou bobo, ou culto, ao citar Camus muitos anos atrás, e não hoje. Mas mamãe morreu, se há pouco ou se há muito, morreu, se foi e o vazio que vinha se construindo nestes anos todos ficou pronto, enorme. Saudade.

2 comentários em “O que dizer nesta hora?”

  1. Maravilhoso e tocante. Mais: carinhoso e afetivo. Obrigado, fez lembrar de muitos momentos com meu pai. Abraços Adauto!

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  2. Oi, Adauto, meu amigo, acabei de saber com muita tristeza sobre a morte da sua mãe. Outro dia mesmo lembrei de voce e tambem dela. Um abraço forte e força ai.

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