A tensão superficial do tempo, de Cristóvão Tezza

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O que me motivou a ler esse livro foi ter lido uma nota de lançamento dizendo que o livro tratava de diálogos que reproduziam a polaridade que vivemos hoje no brasil. 

A história do romance se passa na Curitiba de 2018 e 2019, então aparece com força o peso da ação da procuradoria federal que cuidava da Lava Jato.

Esse livro conta a história de Cândido, um professor de química num cursinho de Curitiba que tem uma segunda atividade muito peculiar: ele é um baita rato da internet que baixa filmes para a sua mãe. Ele é quase um pirata, e eu digo quase porque, dentro de uma ética bem brasileira que se fundamenta nos fins do que nos princípios, se alguém não ganha dinheiro com o resultado da sua pirataria, logo não é um pirata. Esse é o caso de Cândido, que baixa filmes para que sua mãe, uma velhinha que já não sai de casa, possa passar o dia entretida. 

Mas a trama não é essa. A trama é uma história de amor na qual Cândido se enreda, ou melhor, se enrola. 

E o jeito de contar é meio enrolado também, o que deixa um pouco confuso no começo da leitura, mas logo a gente pega o jeito da madeira, porque estamos falando de um livro de um escritor experiente, que conhece bem seu ofício.

Cristóvão Tezza é um curitibano de coração, porque nasceu em Santa Catarina mas viveu sempre em Curitiba. E Curitiba está lá no seu livro. Eu já li alguns livros do Tezza, creio que este seja o quarto livro. Em todos os que eu li, o protagonista é um homem ali pelo meio da vida, com alguma questão emocional empacando seus dias e o colocando para agir sob forte comoção. Um livro que foge um pouco disso, e que talvez seja o melhor livro dele, é O Filho Eterno, que foi lançado em 2007 e ganhou todos os prêmios: APCA, Jabuti, São Paulo e Portugal Telecom (que hoje é chamado de Oceanos). 

Eu falei um pouco antes sobre o jeito que o autor escolheu para contar essa história. Ele faz uma sobreposição de quatro tempos diferentes, sendo que em cada um desses tempos o protagonista está vivendo um evento da vida dele. Ainda, há as conversas com a mãe e com o amigo de quem ele é sócio no cursinho. E esses tempos aparecem sem divisão de capítulos e sem espaço entre parágrafos. O que o autor usa é o itálico para um, o travessão para outro, os parêntesis, o fluxo de memória, a descrição, com interpolações do discurso indireto para as conversas com a mãe e com o amigo. E assim ele vai construindo a teia onde a gente sabe que o Candido está preso. O que a gente nunca vê é a aranha que assusta o inseto.Tem um outro elemento neste romance que é bem interessante. São as conversas entre os professores do cursinho, durante a pausa para o café na sala dos professores. Ali aparecem os dois polos que estão em carne viva na sociedade brasileira atualmente. Vamos lembrar que este livro foi escrito em 2018, 2019, e chegou no mercado agora, no fim do primeiro semestre. Então ele é um livro escrito a quente, no meio desse redemoinho de opiniões que gente está vivendo.

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A tensão superficial do tempo

Autor: Cristovão Tezza

Editora: Todavia, 2020.

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